"De quem eu gosto
nem às paredes confesso"
Eu sei que o meu caminho
Não é mais o seu caminho
Há coisas que eu consigo entender
Sei que já é tempo
De seguir sozinho
Sei que eu preciso te esquecer
Você disse para eu ir embora
E outras bandas procurar
Baixista e baterista eu vou encontrar
E você disse pra que eu cante bem alto
Os males todos espantar
Mesmo estando longe de você
Ontem tive um sonho
O sol era você
Tão bela, tão bonita a me aquecer
Ontem neste sonho
Tentei te convencer
Minha vida não vale absolutamente nada sem você
E você disse que eu nasci louco
E louco eu vou morrer
Num dia chuvoso ao entardecer
E você disse pra que eu não fique triste
E nunca me arrepender
Das coisas que eu fiz e das coisas que deixei de fazer
quarta-feira, agosto 19, 2009
sábado, agosto 08, 2009
Toda minha vida
Vivo no mundo
Mas estou sozinho
A minha namorada
Me trocou pelo vizinho
Que mal
Era só o que faltava
É que ele tem grana
E grana interessa
Se você não tem grana
Esquece
Fico puto com isso
Mas esta é a lei
E tem muito mais
Não me diga eu já sei
Que bom
A nova constituição
Ela disse
Eu tenho o direito
De manter
A boca fechada
Toda minha vida
Eu te procurei
Um dia finalmente
Eu te encontrei
Que bom
Sei que vai ser um arraso
Meu bem ande logo com isto
Vamos tirar o atraso
Fecha o farol
Encosta a baratinha
Desce o gambé
Pra bater uma geral
Que mal
Era só o que faltava
Ele te apalpa toda e me diz
Que o nosso amor é ilegal
Toda minha vida
Eu te procurei
Um dia finalmente
Eu te encontrei
Mas estou sozinho
A minha namorada
Me trocou pelo vizinho
Que mal
Era só o que faltava
É que ele tem grana
E grana interessa
Se você não tem grana
Esquece
Fico puto com isso
Mas esta é a lei
E tem muito mais
Não me diga eu já sei
Que bom
A nova constituição
Ela disse
Eu tenho o direito
De manter
A boca fechada
Toda minha vida
Eu te procurei
Um dia finalmente
Eu te encontrei
Que bom
Sei que vai ser um arraso
Meu bem ande logo com isto
Vamos tirar o atraso
Fecha o farol
Encosta a baratinha
Desce o gambé
Pra bater uma geral
Que mal
Era só o que faltava
Ele te apalpa toda e me diz
Que o nosso amor é ilegal
Toda minha vida
Eu te procurei
Um dia finalmente
Eu te encontrei
Às baleias nossas amigas
As queimadas na Amazônia
Aumentam o buraco
Na camada de ozônio
E o calor é o ponto fraco
Os oceanos vão subir
Porque os polos vão derreter
Rio, Nova Iorque e Tóquio
Vão desaparecer, oh yeah
Pelas coisas que eu vejo
O fim do mundo já começou
Vamos comemorar
Com muito samba e muito soul
No último terremoto
O buraco foi mais fundo
E a chuva ácida liberou o vírus
Que estava preso no submundo
Os frágeis seres humanos
Não tem como se defender
E até os computadores
Vão sofrer, oh yeah
Pelas coisas que eu vejo
O fim do mundo já começou
Vamos comemorar
Com muito reggae e rock and roll
Dizem que a Aids vai destruir
Toda a população
E os furacões vão varrer
Os restos da civilização, oh não
Os homens 'tão atirando
Índio não vai sobrar
E as baleias nossas amigas
Vão se afogar
Baby está chegando a hora
Vamos fazer a coisa já
Pois não há outros planetas
Pra gente se mudar, oh não
Pelas coisas que eu vejo
O fim do mundo já começou
Vamos comemorar
Com muito samba e muito soul
Aumentam o buraco
Na camada de ozônio
E o calor é o ponto fraco
Os oceanos vão subir
Porque os polos vão derreter
Rio, Nova Iorque e Tóquio
Vão desaparecer, oh yeah
Pelas coisas que eu vejo
O fim do mundo já começou
Vamos comemorar
Com muito samba e muito soul
No último terremoto
O buraco foi mais fundo
E a chuva ácida liberou o vírus
Que estava preso no submundo
Os frágeis seres humanos
Não tem como se defender
E até os computadores
Vão sofrer, oh yeah
Pelas coisas que eu vejo
O fim do mundo já começou
Vamos comemorar
Com muito reggae e rock and roll
Dizem que a Aids vai destruir
Toda a população
E os furacões vão varrer
Os restos da civilização, oh não
Os homens 'tão atirando
Índio não vai sobrar
E as baleias nossas amigas
Vão se afogar
Baby está chegando a hora
Vamos fazer a coisa já
Pois não há outros planetas
Pra gente se mudar, oh não
Pelas coisas que eu vejo
O fim do mundo já começou
Vamos comemorar
Com muito samba e muito soul
sexta-feira, julho 31, 2009
Estou legal
Aquela festa na casa da sua tia
Nossa cena na piscina beirou a pornografia
Uísque a rodo, conha de montão
Todo mundo dançando, todo mundo cheiradão
Estive mal
Estive em coma
Estou legal
Aquela festa lá em Arujá
Nos chegamos babando mais pra lá do que pra cá
Escondi a coisa atrás da privada
Quando eu voltei já não tinha mais nada
Estive mal
Estive em coma
Estou legal
Nada é perfeito
Nada é perfeito
Acho que é por isso que eu não vivo direito
Porque nada é perfeito
Estive mal
Estive em coma
Estive legal
Estive mal
Tomei Engov
E Melhoral
Nossa cena na piscina beirou a pornografia
Uísque a rodo, conha de montão
Todo mundo dançando, todo mundo cheiradão
Estive mal
Estive em coma
Estou legal
Aquela festa lá em Arujá
Nos chegamos babando mais pra lá do que pra cá
Escondi a coisa atrás da privada
Quando eu voltei já não tinha mais nada
Estive mal
Estive em coma
Estou legal
Nada é perfeito
Nada é perfeito
Acho que é por isso que eu não vivo direito
Porque nada é perfeito
Estive mal
Estive em coma
Estive legal
Estive mal
Tomei Engov
E Melhoral
aqui tem
Engov,
Festa na casa da sua tia,
Melhoral
A modelo
Ela era a modelo mais gostosa do país
Pagavam uma nota por um close do nariz
Vivia rodeada e se sentia muito só
E nas horas vagas, cheirava muito pó
Ela era assim
E gostava de mim
Mingau de aveia era seu prato preferido
Vivia com a mãe divorciada do marido
Na capa da Vogue muito bem apresentada
Ou na Playboy muito sexy pelada
Ela era assim
E gostava de mim
Ela morreu num acidente de moto
E como foi horrível sua última foto
Um braço na rua, um seio na calçada
Ela ficou toda despedaçada
Agora não brilha o sol
E o seio eu guardo no formol
Ou, uou, uou, uou
Pagavam uma nota por um close do nariz
Vivia rodeada e se sentia muito só
E nas horas vagas, cheirava muito pó
Ela era assim
E gostava de mim
Mingau de aveia era seu prato preferido
Vivia com a mãe divorciada do marido
Na capa da Vogue muito bem apresentada
Ou na Playboy muito sexy pelada
Ela era assim
E gostava de mim
Ela morreu num acidente de moto
E como foi horrível sua última foto
Um braço na rua, um seio na calçada
Ela ficou toda despedaçada
Agora não brilha o sol
E o seio eu guardo no formol
Ou, uou, uou, uou
sábado, julho 04, 2009
A balança
O negócio começou a ficar sério naquele CA no dia em que alguem de fora, que aparecia só para fumar mesmo, sugeriu "vamos comprar um quilo".
Bom, era meio assustador mas fazia senso econômico, logo os partidos fizeram a vaquinha e a compra estava encaminhada, em velocidade assustadora, no final da tarde, começo da noite. Dentro de duas horas mais ou menos receberíamos a encomenda.
E a distribuição? Logo lembrei, Ronaldo, que não fazia ECA mas morava com Éverton, que fazia Cinema, tinha uma balança. Só que morava em Santa Cecília, perto do Mackenzie. Narizinho, que largou a Engenharia na USP de São Carlos, de onde eu o conhecia, para fazer Artes Cênicas, disse que emprestaria a moto, acho que era uma CG 125cc.
Lá fui eu, uma hora de ida, outra de volta. Ronaldo explicou o funcionamento. Cheguei junto com a outra encomenda mas o equipamento registrou problema e o povo achou melhor ir no olhômetro e na justiça do "um corta, outro escolhe" e do "aquele tem menos que este".
Todos ficaram contentes com as respectivas parcelas. Com a serragem saíram duas belas velas, como nunca vistas, antes ou depois. E o Jaçanã me levou de volta para casa, com meu quinhão e a balança.
Bom, era meio assustador mas fazia senso econômico, logo os partidos fizeram a vaquinha e a compra estava encaminhada, em velocidade assustadora, no final da tarde, começo da noite. Dentro de duas horas mais ou menos receberíamos a encomenda.
E a distribuição? Logo lembrei, Ronaldo, que não fazia ECA mas morava com Éverton, que fazia Cinema, tinha uma balança. Só que morava em Santa Cecília, perto do Mackenzie. Narizinho, que largou a Engenharia na USP de São Carlos, de onde eu o conhecia, para fazer Artes Cênicas, disse que emprestaria a moto, acho que era uma CG 125cc.
Lá fui eu, uma hora de ida, outra de volta. Ronaldo explicou o funcionamento. Cheguei junto com a outra encomenda mas o equipamento registrou problema e o povo achou melhor ir no olhômetro e na justiça do "um corta, outro escolhe" e do "aquele tem menos que este".
Todos ficaram contentes com as respectivas parcelas. Com a serragem saíram duas belas velas, como nunca vistas, antes ou depois. E o Jaçanã me levou de volta para casa, com meu quinhão e a balança.
sexta-feira, junho 26, 2009
Memórias de Never

Texto: Never
Ilustrações e suporte psicológico: João Detrito
Tarefa simples, nenhuma ciência aeroespacial: sobe a Sílvia, pega o bumba na Paulista, despenca a Rebouças, chegou. Não fosse o par de joelhos sorrindo sob a abreviada minissaia jeans, não tinha desconcentrado. A vida é curta, mas a saia daquela garota... Perdi o Circular 1 ou 2 com paradas na história, biologia, HC, pequeno desvio através da FAU pra só então apontar na esquina do Banespa e chegar ao meu destino. Fui a pé mesmo, Forrest Gump de antanho, atravessando boa parte da Bolívia e a praça do Relógio. O retângulo quadriculado de cimento correspondia a estudo anterior do sítio arqueológico. Era o CCA, mas eu ainda não havia me dado conta disso.

Pedi informação a uma modelo cujo braço na esquina e seio na calçada apontavam pra uma escada de ladrilhos verdes atrás das portas de vidro. Auditório no primeiro andar. Segui alegremente ao lado dos cordiais 120 novos colegas. Um deles, inclusive, percebendo minha dificuldade em passar pela porta da sala de aula apinhada de gente, fez a gentileza de colocar a sola do seu Vulcabrás bem no meio das minhas costas, me empurrando pra dentro da classe. Rolei os degraus entre as filas de cadeiras bem a tempo de ver garrafas de Domec circulando de mãos em mãos sob os assentos. Ainda não era 8 da manhã. Desmaiei. Depois de alguns segundos no solo, fui prontamente socorrido por dois intelectuais muito altos, que me ergueram pelo pescoço até que meus pés não mais tocassem o chão, numa tentativa desesperada de me reanimar. Quando recobrei a consciência, eles me perguntaram se eu estava bem. Respondi que estive mal, estive em coma, estou legal. Aproveitei para pedir desculpas por qualquer eventualidade passada, presente ou futura e arrumei um lugar pra sentar.
O professor Vigília Michael Pinto apareceu de baccega de fora. Tomei um susto. Achei que seria uma aula imacolatta. Falei: Xi, fadul! Uma japonesinha muito tímida que acabara de ganhar um cigarro multicolorido num sorteio me mandou sossegar, era só moya da minha cabeça.
Nossa primeira incumbência era produzir um vídeo, criar um super-herói. Alguém que fosse mais rápido, mais forte, mais valente. Alguém, assim, de Belvedere. Entre tantos tipos atléticos disponíveis, arrumamos um calouro de peito largo, pernas finas, fumante passivo (ninguém é perfeito, e não estamos aqui pra tecer julgamentos sobre as opções de quem quer que seja) inveterado.
O sujeito ganhou o papel no teste executando uma cena perfeita, onde, depois de quebrar uma mesa de ping pong por ter sido derrotado, ele protagonizava um beijo (meramente cenográfico) com um tipo barbado, de peruca loira. A atuação foi impressionante. Com que carinho e realismo nosso candidato a ator alisava os falsos cabelos loiros, chamando o ogro de “Regininha”. Excentricidades artísticas à parte, o papel era dele.Subimos a Serra da Cantareira com tudo em cima pra captação de imagens. Parte do material estava numa caixa de papelão. O restante, no tubinho de kinder-ovo dentro de um saquinho de tênis Puma. Como era mesmo o nome do colega que portava o kinder-ovo? Não lembro, só lembro que era chamado de Nôno por uns, Mano-Velho por outros. Pois bem, maquiamos o personagem, ajeitamos as plantinhas cenográficas providenciadas pela produção divina, escolhemos o melhor ângulo para o plano.
- Pois bem, capitão, onde está a fita?
- Fita?
- É... a fita pra gravar.
- Não posso pensar em tudo. Não trouxe a fita.
O fato era esse: nosso capitão lembrou de trazer a peruca loira, a bota de escalada, o gorro de alpinista, cordas, grampos, cachaça, mas havia esquecido a fita.Passado esse momento de decepção, esperamos nosso produtor de cabelo descolorido com água oxigenada despachar diplomaticamente os PMs que já nos cercavam. O sargento da PM só se deu por convencido quando nosso produtor falou: “- Chegou um rapaz com um papel pra mim. Me dê um motivo pra ir embora”. Liberados, iniciamos nossa volta pra casa. Entramos no nosso automóvel modelo Cafavan, finamente decorado com musgo em seu interior, ouvindo o sibilar relaxante dos guizos das cascavéis no porta-malas, olhando o asfalto que passava sob o assoalho desmanchado do veículo.
Já de volta ao Centro Acadêmico, fomos tomados por aquele sentimento de vazio interior. Apesar da disponibilidade de uns em preencher o vazio interior de outros, começamos a pensar em algo pra fazer. Foi quando alguém lembrou: - Porque não aproveitamos pra consertar a mesa de ping-pong quebrada com um pouco da cola de sapateiro usada na Artes Cênicas?
Partimos pra essa nova empreitada.
O afã de concluir o novo projeto era tão grande que dois dos nossos se pegaram pelos cabelos, tentando ferir o chão com o nariz do oponente.
- Vou te desossar, punk veado! Vou te trancar no meu arquivo vermelho e vou jogar a chave no lixo!
- Então vem, judeu-nazista-fascista. Vou te matar de tédio com meu discurso pró-sandino!
A pendenga durou até que a Marta pegou heavy e falou: - 25% e um banho pra cada um, e não se fala mais nisso. Felizmente o politicamente-correto ainda não era uma demanda na época, ninguém foi acusado pela adjetivação preconceituosa empregada no debate-boca, e não foi instaurado processo na polícia federal por atitude discriminatória. O importante é que o episódio inspirou uma nova dança, e imediatamente nos pusemos a organizar uma festa no sítio de Sujaime.
O ex-presidente deposto do CA e gerente-geral da estrapolândia Taraldo foi encarregado das compras, e nos trouxe 8 Suflair e uma garrafa de vodka Baikal para o fim de semana. Ingerimos alguns doces pra encarar a viagem. Nevava muito e tínhamos que empurrar o jeep que só pegava no tranco. Para otimizar o esforço, cinco empurravam na parte da frente, cinco na parte de trás. O jeep não se movia. As gargalhadas das pessoas que assistiam tudo de uma padaria só cessaram quando os estudantes de engenharia infiltrados na comunicação, Ivo Kanivo e Pelôncio, se não me engano, disseram que a iniciativa estava correta em seu fundamento, mas o esforço deveria ser concentrado em uma só direção. Como são arrogantes esse engenheiros. Se preocupam com resultados, sem dar a menor importância ao entretenimento. E ainda acham que podem fazer cinema.
A pista de dança ia à todo vapor no sítio de Sujaime. Celginho, o homem-nó, comandava a turba com gritos de “- Ui, rrrrapazzz!” ou “Sei lá, Sarney, mil coisas!” O ator Pluto só aguardava o final do Jornal Nacional às 4 da manhã para voltar a beijar a Regininha. Dançávamos apenas e exclusivamente Subculture do New Order quando um secretário de Estado, que havia começado sua carreira encenando “Tistu, o Menino do Dedo Verde”, mas a essa altura já estrelava “Nossa Caixa 2, o Menino da Mão Grande”, parou de beijar a cadela Negrita na boca e veio diretamente do meio do pasto para vomitar no centro da sala, onde dançávamos. Esse gesto, obviamente, facilitou os movimentos na pista de dança, deslizávamos melhor, por isso resolvemos voltar a música Sub Culture e dançar novamente.No final da dança, tivemos que levar o secretário de Estado ao banheiro pra que ele pudesse vomitar novamente. Nessa ocasião, o banheiro masculino era separado do banheiro feminino apenas por uma tapadeira de madeira. Foi então que um colega, um ursinho com bandana no pescoço e um enorme topete enrolado num maço de bom-bril, que atendia pela alcunha de Rockabílio Manoel, notou a obsolescência do sistema de espelhos instalado pelo companheiro Cafuringa Lobiscate, a fim de observar mais de perto o vaso sanitário utilizado pelas mulheres. Imediatamente, Rockabílio Manoel sacou seu canivete e começou a escavar um buraquinho na tapadeira, que depois virou um buracão. No terceiro dia, quando já havíamos desistido de fazer com que Rockabílio Manoel saísse daquele banheiro, a tapadeira cedeu com o peso dos 15 ou 20 marmanjos que se espremiam pra olhar através do buraco que dava pro banheiro feminino, e todos cariam no meio da mulherada. Não recordo de momento mais romântico. As garotas com certeza se sentiram definitivamente seduzidas.
De volta à Universidade, convocamos uma reunião extraordinária na Estrela, também conhecida por CA de Inverno. Nos pusemos a queimar.... as pestanas para ver qual seria a nova aventura. Queimamos, queimamos e queimamos, e quanto mais a gente queimava, mais dispersos parecíamos ficar. Não lembro muito bem desse dia. Lembro que, em dado momento, o carioca Jean, já com os dedos calejados de tanto debulhar espigas de milho, veio com uma proposta: porque não subimos a cópula do congresso?
Pensamos: será?....só imaginação?... será?...que nada vai acontecer?....será? .... que é tudo isso em vão?....será? ...que vamos conseguir vencer?
To be or not to be continued...
(crédito fotos: Paramão Pictures, Fernando Stankus, Vladmir Putinho)
sábado, junho 20, 2009
Histórico Escolar (em andamento)
| CODIGO | NOME DA DISCIPLINA |
| ****** | PRIMEIRO SEMESTRE DE 1985 |
| CCA113 | HISTORIA DA CULTURA E DA COMUNICACAO I |
| CCA117 | FUND SOCIOLOGICOS DA COMUNICACAO (SOCIOLOGIA GERAL) |
| CCA140 | COMUNICACAO LINGUISTICA I (LINGUA PORTUGUESA I) |
| CCA178 | REALIDADE SOCIO-ECONOMICA E POLITICA BRASILEIRA I |
| CCA180 | FILOSOFIA DA COMUNICACAO I (FILOSOFIA I) |
| CCA182 | TEORIA DA COMUNICACAO I |
| CTR421 | HISTORIA DO RADIO E DA TELEVISAO |
sexta-feira, junho 19, 2009
Rádio Pirata
Bom rapaziada, a idade avança, as memórias retrocedem e, como dizem aqui nesta ilha, vou "raspando o fundo do barril" mas este é mais um caso verídico que acho que aconteceu em oito cinco, o Cesinha e o Lusão que o confirme ou desminta.
Na época estava na moda uma onda de transformação social com o uso da tecnologia e as emergentes rádios piratas eram o bom exemplo. Muito se falava mas pouco se sabia então um partido, não lembro exatamente quem, lá da RTV e talvez alguns representantes dicentes de outros departamentos decidiram fazer uma vaquinha para comprar os componentes necessários para produzir um transmissor. "Produzir" sendo um termo utópico pois o conhecimento conjunto de eletrônica era limitado.
Vejo entre as nuvens do tempo um pequeno grupo na Rua Santa Ifigênia, 50% idealista, 50% porralouca e bota de lambuja mais uns 50% empreendedor, indo de loja em loja, comprando os resistores e capacitores, dissipador de calor e o todo poderoso e caro cristal - segundo me lembro a alma do transmissor, que estabeleceria em última análise o quão distante poderíamos encontrar ouvintes dispostos a compatilharem de nossos gostos musicais, opiniões e preconceitos.
Lá próximo da Praça do Relógio encontra-se até hoje o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo. A noite, sempre achei os prédios do Crusp a feição mais bela do panorama arquitetônico da USP. A raia de remo próxima. As janelas iluminadas aleatoriamente. Pareciam peças de dominó, prontas a serem empurradas, uma derrubando a próxima em cadeia.
Chegamos lá com a muamba, dentro de um pequeno saco plástico transparente. Ibiúna indicou o residente capaz de ajudar a realização de nosso plano, acho que seu nome era Tufik mas que chamarei de Habib, por pura falta de memória.
O encontro não foi bem, e não foi para menos, ao menos de minha parte não fui cordial. Queríamos a porra do transmissor o quanto antes e tudo que se encontrava entre nós e o equipamento pronto era um obstáculo.
Vejo no passado distante o esquema eletrônico, simples. Cópia xerox. Será a tendência do cosmos o caos e a complexidade? Após a entrega fomos cheios de sonhos tomar cervejas e discutir a nossa programação e mais importante, como nos posicionarmos fora do alcance do longo braço da lei, representado então pelo Dentel. Ora bolas, este nome é mais condizente com serviços odontológicos mesmo assim, discutíamos boatos sobre transmissores apreendidos, de onde transmissões eram feitas, como os estúdios nômades se movimentavam, etc.
Os dias foram passando e nada do transmissor ficar pronto. O final infeliz foi o petit comité indo em passeata até o apê do Habib confiscar os componentes, que foram juntar poeira em outra localidade da metrópole, e nunca mais se falou em rádio pirata.
Na época estava na moda uma onda de transformação social com o uso da tecnologia e as emergentes rádios piratas eram o bom exemplo. Muito se falava mas pouco se sabia então um partido, não lembro exatamente quem, lá da RTV e talvez alguns representantes dicentes de outros departamentos decidiram fazer uma vaquinha para comprar os componentes necessários para produzir um transmissor. "Produzir" sendo um termo utópico pois o conhecimento conjunto de eletrônica era limitado.
Vejo entre as nuvens do tempo um pequeno grupo na Rua Santa Ifigênia, 50% idealista, 50% porralouca e bota de lambuja mais uns 50% empreendedor, indo de loja em loja, comprando os resistores e capacitores, dissipador de calor e o todo poderoso e caro cristal - segundo me lembro a alma do transmissor, que estabeleceria em última análise o quão distante poderíamos encontrar ouvintes dispostos a compatilharem de nossos gostos musicais, opiniões e preconceitos.
Lá próximo da Praça do Relógio encontra-se até hoje o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo. A noite, sempre achei os prédios do Crusp a feição mais bela do panorama arquitetônico da USP. A raia de remo próxima. As janelas iluminadas aleatoriamente. Pareciam peças de dominó, prontas a serem empurradas, uma derrubando a próxima em cadeia.
Chegamos lá com a muamba, dentro de um pequeno saco plástico transparente. Ibiúna indicou o residente capaz de ajudar a realização de nosso plano, acho que seu nome era Tufik mas que chamarei de Habib, por pura falta de memória.
O encontro não foi bem, e não foi para menos, ao menos de minha parte não fui cordial. Queríamos a porra do transmissor o quanto antes e tudo que se encontrava entre nós e o equipamento pronto era um obstáculo.
Vejo no passado distante o esquema eletrônico, simples. Cópia xerox. Será a tendência do cosmos o caos e a complexidade? Após a entrega fomos cheios de sonhos tomar cervejas e discutir a nossa programação e mais importante, como nos posicionarmos fora do alcance do longo braço da lei, representado então pelo Dentel. Ora bolas, este nome é mais condizente com serviços odontológicos mesmo assim, discutíamos boatos sobre transmissores apreendidos, de onde transmissões eram feitas, como os estúdios nômades se movimentavam, etc.
Os dias foram passando e nada do transmissor ficar pronto. O final infeliz foi o petit comité indo em passeata até o apê do Habib confiscar os componentes, que foram juntar poeira em outra localidade da metrópole, e nunca mais se falou em rádio pirata.
aqui tem
cesinha,
CRUSP,
dentel,
Empreendedor,
Ibiúna,
Idealista,
Lusão,
Porralouca,
rádio pirata,
Santa Ifigênia
quinta-feira, junho 18, 2009
Mais um Baile dos Monstros

Thomas Mann - "Fundo é o buraco do passado"
Nélio - Sim. Fundo e mal iluminado.

E o Idã foi abanado na Parada Gay por uma bicha com chapéu de Crocodilo Dando. Pelo visto era uma distribuição de abanos grátis, pra ver se alguma brasa acendia. "Tô abanando e andando pra esse brasa", comentou a bicha.
Nada a ver esse nome Parada Gay. Alguém já viu bicha parada? A bicha está sempre inquieta,
prepare-se para a Inquieta Gay 2010
Cuidado com o vão. Com o vão no vão.

quarta-feira, junho 10, 2009
É mentira, Terta?
Como outros, este causo tambem começa de manhã...
Fomos eu, Cezinha e Ana Luísa ao laboratório de anatomia defronte ao prédio principal da ECA, do outro lado da Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, com roteiro, planilha de produção e câmera em punho para gravarmos uma das cenas finais de "A modelo".
Segundo a letra da música tema; "Ela morreu num acidente de moto/E como foi horrível sua última foto/Um braço na rua, um seio na calçada/Ela ficou toda despedaçada...". E parece agora um tanto surreal que os três jovens naquele momento se encontraram batendo a porta do dito laboratório.
Um moreno magrelo atendeu. Era o assistente do Dr Watanabe - o bam-bam-bam do Departamento de Anatomia. A porta foi aberta 45 graus. O suficiente para entrarmos em fila indiana. Parece que o assistente não estava lá muito disposto a deixar-nos entrar, ou talvez receoso de que alguns fantasmas escapassem. E na sua sala, Dr Watanabe olhou sobre o ombro de soslaio, tomou conhecimento de nossa presença e voltou a se debruçar sobre a escrivaninha.
O silêncio era condizente com a atmosfera austera do local. O cheiro insuportável de formol, subindo pelas narinas, rasgando direto até o topo do cérebro. Pensei no efeito de anos exposto a este ambiente.
Fomos conduzidos, ao longo de um corredor com pratelheiras repletas de jarras, com toda sorte de tecido humano em conserva, até a sala de aula vazia, com suas mesas frias de metal.
Explicamos ao assistente que necessitávamos de um braço e um seio. Ele nos levou ao laboratório anexo. A cena era dantesca e se não fosse pelo fato de ter ouvido tais narrativas de alunos de medicina, acho que meu estômago teria virado.
Será que alguem sentia falta daquelas pessoas?
Na pia, próxima a janela, haviam duas cabeças. Na bancada ao longo da parede oposta, braços e pernas empilhadas. No meio do laboratório, dois tanques imensos, de fato pequenas piscinas com paredes de tijolo, do chão até minha cintura, com tampos de madeira em cada metade, abrindo da extremidade ao centro. Uma metade aberta e suspensa por um cabo de vassoura escorado na beirada. A outra por abrir. Dentro, no líquido turvo, vários pedaços de gente, de todo tamanho, algumas secções boiando acima da superfície.
Ele pegou então um arpão e começou a pescar, logo um tórax vinha a tona, sem pernas e sem cabeça mas de mulher, sem dúvida. Lá estavam os seios. Achei interessante, ainda que macabro, como ele conhecia o estoque. Eu disse que melhor seria um seio só, separado do resto.
O assistente botou o arpão de volta na bancada, pegou um dos braços que ali se encontravam e foi em busca do seio. Voltou com um e colocou-o em uma das mesas, ao lado do braço. Logo botamos ele para atuar. Decorou sua fala - "Isto, foi tudo que restou...". E disse-a, nos dois ou três takes, com exatamente a mesma indiferença de quem sabe bem que a vida não vale nada.
Deixamos assim o Dr Watanabe e seu assistente para a ciência, para nunca mais voltarmos. E aposto que em vida nunca sentiram, sentem ou sentirão nossas faltas.
Fomos eu, Cezinha e Ana Luísa ao laboratório de anatomia defronte ao prédio principal da ECA, do outro lado da Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, com roteiro, planilha de produção e câmera em punho para gravarmos uma das cenas finais de "A modelo".
Segundo a letra da música tema; "Ela morreu num acidente de moto/E como foi horrível sua última foto/Um braço na rua, um seio na calçada/Ela ficou toda despedaçada...". E parece agora um tanto surreal que os três jovens naquele momento se encontraram batendo a porta do dito laboratório.
Um moreno magrelo atendeu. Era o assistente do Dr Watanabe - o bam-bam-bam do Departamento de Anatomia. A porta foi aberta 45 graus. O suficiente para entrarmos em fila indiana. Parece que o assistente não estava lá muito disposto a deixar-nos entrar, ou talvez receoso de que alguns fantasmas escapassem. E na sua sala, Dr Watanabe olhou sobre o ombro de soslaio, tomou conhecimento de nossa presença e voltou a se debruçar sobre a escrivaninha.
O silêncio era condizente com a atmosfera austera do local. O cheiro insuportável de formol, subindo pelas narinas, rasgando direto até o topo do cérebro. Pensei no efeito de anos exposto a este ambiente.
Fomos conduzidos, ao longo de um corredor com pratelheiras repletas de jarras, com toda sorte de tecido humano em conserva, até a sala de aula vazia, com suas mesas frias de metal.
Explicamos ao assistente que necessitávamos de um braço e um seio. Ele nos levou ao laboratório anexo. A cena era dantesca e se não fosse pelo fato de ter ouvido tais narrativas de alunos de medicina, acho que meu estômago teria virado.
Será que alguem sentia falta daquelas pessoas?
Na pia, próxima a janela, haviam duas cabeças. Na bancada ao longo da parede oposta, braços e pernas empilhadas. No meio do laboratório, dois tanques imensos, de fato pequenas piscinas com paredes de tijolo, do chão até minha cintura, com tampos de madeira em cada metade, abrindo da extremidade ao centro. Uma metade aberta e suspensa por um cabo de vassoura escorado na beirada. A outra por abrir. Dentro, no líquido turvo, vários pedaços de gente, de todo tamanho, algumas secções boiando acima da superfície.
Ele pegou então um arpão e começou a pescar, logo um tórax vinha a tona, sem pernas e sem cabeça mas de mulher, sem dúvida. Lá estavam os seios. Achei interessante, ainda que macabro, como ele conhecia o estoque. Eu disse que melhor seria um seio só, separado do resto.
O assistente botou o arpão de volta na bancada, pegou um dos braços que ali se encontravam e foi em busca do seio. Voltou com um e colocou-o em uma das mesas, ao lado do braço. Logo botamos ele para atuar. Decorou sua fala - "Isto, foi tudo que restou...". E disse-a, nos dois ou três takes, com exatamente a mesma indiferença de quem sabe bem que a vida não vale nada.
Deixamos assim o Dr Watanabe e seu assistente para a ciência, para nunca mais voltarmos. E aposto que em vida nunca sentiram, sentem ou sentirão nossas faltas.
segunda-feira, maio 25, 2009
quarta-feira, maio 20, 2009
Ivo e Lela
Ivo e Lela tomando cerveja as 0940h na lanchonete.
Ivo de óculos e Ana Valéria, a própria Mona Lisa, sorriem ante a minha incredulidade. Os dois não deram muito o ar da graça. Ivo desapareceu por completo. Mudou de escola. Lela passou a trabalhar durante o dia e assistir aulas durante a noite.
Um dia conheci seu irmão, então estudante da FAU, que tocava baixo no "Dum Dum Boys" - nome emprestado de uma letra do Iggy Pop.
A banda era punk, ainda que a natureza das letras não fosse anti-estabelecimento.
"Vou ter que tirar! Nascer nesta bosta de mundo, ai que bom afinal estou aqui, e daí se não tenho no bolso, nem dinheiro pra comprar um disco. Vou ter que tirar!". A guitarrista dobrando os vocais no refrão. Desta música não lembro o nome. Lembro mais de "Solidão":
"O taxi não parou
E a chuvai ca-ai.
O taxi não parou
E a chuva ca-a-ai sobre mim
Minhas botas estão encharcadas
E o coração úmido
De lágrimas
Lágrimá-á-ás
(...)
Eu vejo a rua
Este espelho quebrado
(...)
Apenas um reflexo, reflexo
Da solidão
Solidã-ã-ão"
Logo vi que a melancolia era de família. Ivo ao contrário era uma criatura mais solar. E segundo meu poema predileto; "como luz e sombra, devem um do outro emprestar". Yin e Yang.
Faloooooooou...
dddddd
Ivo de óculos e Ana Valéria, a própria Mona Lisa, sorriem ante a minha incredulidade. Os dois não deram muito o ar da graça. Ivo desapareceu por completo. Mudou de escola. Lela passou a trabalhar durante o dia e assistir aulas durante a noite.
Um dia conheci seu irmão, então estudante da FAU, que tocava baixo no "Dum Dum Boys" - nome emprestado de uma letra do Iggy Pop.
A banda era punk, ainda que a natureza das letras não fosse anti-estabelecimento.
"Vou ter que tirar! Nascer nesta bosta de mundo, ai que bom afinal estou aqui, e daí se não tenho no bolso, nem dinheiro pra comprar um disco. Vou ter que tirar!". A guitarrista dobrando os vocais no refrão. Desta música não lembro o nome. Lembro mais de "Solidão":
"O taxi não parou
E a chuvai ca-ai.
O taxi não parou
E a chuva ca-a-ai sobre mim
Minhas botas estão encharcadas
E o coração úmido
De lágrimas
Lágrimá-á-ás
(...)
Eu vejo a rua
Este espelho quebrado
(...)
Apenas um reflexo, reflexo
Da solidão
Solidã-ã-ão"
Logo vi que a melancolia era de família. Ivo ao contrário era uma criatura mais solar. E segundo meu poema predileto; "como luz e sombra, devem um do outro emprestar". Yin e Yang.
Faloooooooou...
dddddd
aqui tem
Ana Valéria,
cerveja matinal,
Dum Dum Boys,
Espelho quebrado,
Ivo,
Lela,
Solidão
quinta-feira, maio 14, 2009
A grande Renata Junqueira
Bem, já que estou embalado vou espremer aqui uma mini-postagem sobre aquela alma criativa que nos abençoou com muitas risadas. Sim, trata-se da Renata Junkie. Meu primeiro convívio com a dita cuja foi quando ela me agarrou - como foi belo aquele malho - na primeira festinha. Eu, com a cola ainda fresca no coração em cacos, achei aquilo uma excelente boavinda.
Porém, na segunda-feira seguinte, Renata se portou de maneira estranha, fria e distante. Achei tudo muito confuso.
Só vim a descobrir muitos anos depois - ela me levou a um bar gay para dar a notícia - que jogava mais regularmente no outro time e o lance da festinha foi só por distração.
Enfim, não deixei aquela petite nuvem obstruir o sol que brilhava de dentro. E aqui vou descrever uma cena que tenho certeza que todos lembram bem. A Renata estava fazendo uma apresentação em grupo no anfiteatro do primeiro andar, prédio principal. Ela arrumou um peruca meia ruiva, meio afro e ficou parecendo vocês sabem quem. Então escreve um parágrafo na lousa tipo:
"O modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações intelectuais de uma época."
E diz:
- O primeiro passo para fazer a análise crítica de um texto é sublinhar as palavras-chave - modo, produção, material, sociedade, fator, organização, política, representações, intelectuais e época.
Sublinhadas as palavras, no quadro negro tínhamos:
"O modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações intelectuais de uma época."
Ela prossegue:
- Agora, lemos o texto novamente, sublinhando as palavras-chave que não foram sublinhadas da primeira vez, estas são - pelo, qual, realizada, constitui e determinante.
"O modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações intelectuais de uma época."
- Finalmente fazemos uma terceira e última leitura crítica do texto sublinhando - O, a, de, uma, é, o, da, e, de, uma."
"O modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações intelectuais de uma época."
- Assim concluímos a leitura crítica do texto, com todas as palavras-chave sublinhadas.
Não sei se foi Melk ou Armandinho (ensaiado lembrem-se) que levanta a mão e pergunta:
- Professora, o "das" não é palavra-chave?
- Não, "das" não é palavra-chave.
Conclui de forma tão hilariante quanto arbitrária. Arbitrariedade enraivecedora na vida real.
***
Do Leme ao Pontaaaaaaal, do Leme ao Pontal, não há nada iguaaaaaaaaaaaal...
Beeeeeeijos
ddddd
Porém, na segunda-feira seguinte, Renata se portou de maneira estranha, fria e distante. Achei tudo muito confuso.
Só vim a descobrir muitos anos depois - ela me levou a um bar gay para dar a notícia - que jogava mais regularmente no outro time e o lance da festinha foi só por distração.
Enfim, não deixei aquela petite nuvem obstruir o sol que brilhava de dentro. E aqui vou descrever uma cena que tenho certeza que todos lembram bem. A Renata estava fazendo uma apresentação em grupo no anfiteatro do primeiro andar, prédio principal. Ela arrumou um peruca meia ruiva, meio afro e ficou parecendo vocês sabem quem. Então escreve um parágrafo na lousa tipo:
"O modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações intelectuais de uma época."
E diz:
- O primeiro passo para fazer a análise crítica de um texto é sublinhar as palavras-chave - modo, produção, material, sociedade, fator, organização, política, representações, intelectuais e época.
Sublinhadas as palavras, no quadro negro tínhamos:
"O modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações intelectuais de uma época."
Ela prossegue:
- Agora, lemos o texto novamente, sublinhando as palavras-chave que não foram sublinhadas da primeira vez, estas são - pelo, qual, realizada, constitui e determinante.
"O modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações intelectuais de uma época."
- Finalmente fazemos uma terceira e última leitura crítica do texto sublinhando - O, a, de, uma, é, o, da, e, de, uma."
"O modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações intelectuais de uma época."
- Assim concluímos a leitura crítica do texto, com todas as palavras-chave sublinhadas.
Não sei se foi Melk ou Armandinho (ensaiado lembrem-se) que levanta a mão e pergunta:
- Professora, o "das" não é palavra-chave?
- Não, "das" não é palavra-chave.
Conclui de forma tão hilariante quanto arbitrária. Arbitrariedade enraivecedora na vida real.
***
Do Leme ao Pontaaaaaaal, do Leme ao Pontal, não há nada iguaaaaaaaaaaaal...
Beeeeeeijos
ddddd
quarta-feira, maio 13, 2009
O Diário do Gil Topete
1985. O ano começou bambo ao longo do esculhambódromo. Eu estava entre a primeira e segunda fase da Fuvest, sem muitas certezas, tendo escolhido o curso de Rádio e TV por exclusão. Já havendo cursado um semestre de Ciências Sociais na UNESP de Marília, seguido de um ano na História da USP.
O verão passava e eu não muito a fim de estudar. No último dia do exame da segunda fase, após uma noitada, acordei tarde e emprestei o fuscão da minha mãe. No caminho fumei a bagana remanescente da balada anterior. Cheguei na sala dez minutos atrasado mas o examinador foi misericordioso e me deixou entrar. Escrevi a redação e a boa alma que a corrigiu também me fez um grande favor visto que este exame tinha grande peso comparado com os outros. Na verdade eu sabia que (na época atribuia certa importância ao) meu bio-ritmo estava bem naquele dia. Após o exame e uma cerva, passei horas no fliperama com uma só ficha, ganhando todas. Isto raramente acontecia.
Mesmo assim mau acreditei quando alguns dias depois li meu nome na lista dos aprovados. Entrei na ECA. A ECA de Tadeu Jungle e Pedro Vieira. A ECA de Marcelo Rubens Paiva, de Lilian Witte Fibe além de Rita Lee, diziam as más línguas. Meu Deus com dê maiúsculo!
Passada a euforia inicial logo voltei aos maus hábitos e depois de mais uma batelada de burocracia estudantil me deparei com o primeiro amiguinho e este foi o Lusão. Ele estava lá entre o prédio principal e o departamento de jornalismo. Os caracóis em chamas, na tarde alaranjada, conversamos sobre Marília (Luso se recusava a dar bom ibope a cidade mãe) e compartilhamos a magia daquele instante, de jovens se atirando com fome de viver ao mundo, algo que como nascer, perder a virgindade e morrer, só se experimenta uma vez nesta vida, n'est pas?
Dei o meu adeus ao curso de História, na forma de uma aula trote entitulada "Macro História e Micro História" que lecionei para os calouros daquele departamento. Fui apresentado ao anfiteatro quase lotado pelo então jovem professor Nicolau Sevcenko, tão conceituado quão chegado numa peraltice - ele encheu a minha bola legal. Consegui dobrar los ainda que um bandeiroso do meu ano tenha aparecido de sunga, máscara, snorkel e pés de pato. Após terminar, sem não antes instigar naqueles otários a necessidade de sempre exercitarmos o senso crítico, flertei por breves instantes com os louros da glória, quando ao me encaminhar para o bar fui imediatamente abordado por duas calouras altas e bem apessoadas, interessadas em mais macro e micro histórias. Bem, como creio eu ser no fundo, no fundo, no fundo uma pessoa de boa índole, sem mais informei as ingênuas o ocorrido, após o qual se levantaram, me deram as costas e nunca mais me olharam na cara.
Mas isto já é milonga demais afinal esta milonga é sobre O Diário do Gil Topete.
Cheguei na RTV já fazendo alguns amigos e outros inimigos mas lá num canto, quieto e fumando seu hollywood, sentado neutro na janela estava o Gil. Após algumas semanas de convivência, a Juju e as cervejas nos aproximaram até o ponto em que eu passava no apê da vó dele - após o desligamento do Tancredo me mudei da Vila Madalena para Santa Cecília - na Avenida Higienópolis, para pegar uma carona no Chevette do Topete.
Invariavelmente era atendido pela avó, que me conduzia para o seu quarto - Gil na cama, semi-consciente, ligeiramente mau-humorado. Invariavelmente chegávamos atrasados, nas já para lá de avacalhadas aulas do básico. Não mentirei, a Bacega me ensinou uma coisa ou duas, mas isto é assunto para outra postagem.
Comecei a desconfiar que Gilberto ao contrário de mim, era um ser verdadeiramente amoral e não considerava minimamente prioritárias as incumbências discentes. Assim sendo, nas ocasiões em que o horário apresentava algo mais interessante, eu enfrentava o terror do Butantã-USP para ser pontual.
Ocorreu que um dia, durante o período matutino, no ano do senhor de 1985, eu estava parlando com a Juju quando apareceu não sei de onde, o diário do Gil Topete. Na verdade, naquele ponto da evolução, não sabíamos do que se tratava aquela agenda preta, mas como a natureza humana é xereta, logo descobrimos. Os dias - os impressos e os anotados, estavam fora de fase, mas logo vimos pelo padrão das entradas, em order crescente de data, que se tratava de um diário. A caligrafia, por conta do convívio, identificamos como a dele, e com olhos ávidos de curiosidade, começamos a varrer os fatos ali contidos. Estes, fazendo jus, eram mais prolíficos nos meses de férias, antecedendo o começo das aulas - quando os escritos foram tornando-se cada vez mais escassos, até morrerem abruptamente numa página em branco, a alma sem inspiração, a mão sem disposição para empurrar a caneta pelos meandros do tédio.
Tal qual Édipo descobrindo que havia matado o pai e desposado a mãe, grande foi minha surpresa quando constatei que o formato dos dias ali narrados era praticamente um só: "Acordei [na casa de não sei quem], peguei uma carona[até não sei aonde]. Fui para casa, fiz a barba. Fui para o Rose Bom Bom [não sei quem] estava de dj e entrei de graça. Depois no Madame Satã encontrei o guitarrista do [grupo tal] e o baterista da [outra banda]. Peguei uma carona para uma festa da [amiga do amigo da amiga]. Fiquei com [não sei quem]."
Nestas, Gil viveu em primeira pessoa a explosão musical da época. Ainda que um Rockabilly de carteirinha, ele viu de tudo, Legião no começo do começo - sua irmã Marcinha era boa amiga de Renato Russo, que sempre a telefonava, quando em São Paulo. Ira! Nazi sendo seu inimigo número um, ambos disputando o amor de Camila (não a da música). Enfim, tantas bandas cruzaram seu caminho pela noite Paulistana.
Infelizmente creio aqueles rascunhos estarem no mesmo local que a maior parte de minhas memórias. Mas lembro que o diário era gozado. Era a apoteóse do sex, drugs e rock and roll sem as drogas - Topete era mais chegado no cigarro e na birita.
E aqui termina o conto do diário do Gil Topete.
Não percam no próximo episódio... As pesquisas da Maria Aparecida Bacega, a não ser que algum outro(a) aventureiro(a) queira contar este causo.
Tomo guaraná, suco de cajú, goiabada para a sobremeeeeeeeesa...
ddddddd
O verão passava e eu não muito a fim de estudar. No último dia do exame da segunda fase, após uma noitada, acordei tarde e emprestei o fuscão da minha mãe. No caminho fumei a bagana remanescente da balada anterior. Cheguei na sala dez minutos atrasado mas o examinador foi misericordioso e me deixou entrar. Escrevi a redação e a boa alma que a corrigiu também me fez um grande favor visto que este exame tinha grande peso comparado com os outros. Na verdade eu sabia que (na época atribuia certa importância ao) meu bio-ritmo estava bem naquele dia. Após o exame e uma cerva, passei horas no fliperama com uma só ficha, ganhando todas. Isto raramente acontecia.
Mesmo assim mau acreditei quando alguns dias depois li meu nome na lista dos aprovados. Entrei na ECA. A ECA de Tadeu Jungle e Pedro Vieira. A ECA de Marcelo Rubens Paiva, de Lilian Witte Fibe além de Rita Lee, diziam as más línguas. Meu Deus com dê maiúsculo!
Passada a euforia inicial logo voltei aos maus hábitos e depois de mais uma batelada de burocracia estudantil me deparei com o primeiro amiguinho e este foi o Lusão. Ele estava lá entre o prédio principal e o departamento de jornalismo. Os caracóis em chamas, na tarde alaranjada, conversamos sobre Marília (Luso se recusava a dar bom ibope a cidade mãe) e compartilhamos a magia daquele instante, de jovens se atirando com fome de viver ao mundo, algo que como nascer, perder a virgindade e morrer, só se experimenta uma vez nesta vida, n'est pas?
Dei o meu adeus ao curso de História, na forma de uma aula trote entitulada "Macro História e Micro História" que lecionei para os calouros daquele departamento. Fui apresentado ao anfiteatro quase lotado pelo então jovem professor Nicolau Sevcenko, tão conceituado quão chegado numa peraltice - ele encheu a minha bola legal. Consegui dobrar los ainda que um bandeiroso do meu ano tenha aparecido de sunga, máscara, snorkel e pés de pato. Após terminar, sem não antes instigar naqueles otários a necessidade de sempre exercitarmos o senso crítico, flertei por breves instantes com os louros da glória, quando ao me encaminhar para o bar fui imediatamente abordado por duas calouras altas e bem apessoadas, interessadas em mais macro e micro histórias. Bem, como creio eu ser no fundo, no fundo, no fundo uma pessoa de boa índole, sem mais informei as ingênuas o ocorrido, após o qual se levantaram, me deram as costas e nunca mais me olharam na cara.
Mas isto já é milonga demais afinal esta milonga é sobre O Diário do Gil Topete.
Cheguei na RTV já fazendo alguns amigos e outros inimigos mas lá num canto, quieto e fumando seu hollywood, sentado neutro na janela estava o Gil. Após algumas semanas de convivência, a Juju e as cervejas nos aproximaram até o ponto em que eu passava no apê da vó dele - após o desligamento do Tancredo me mudei da Vila Madalena para Santa Cecília - na Avenida Higienópolis, para pegar uma carona no Chevette do Topete.
Invariavelmente era atendido pela avó, que me conduzia para o seu quarto - Gil na cama, semi-consciente, ligeiramente mau-humorado. Invariavelmente chegávamos atrasados, nas já para lá de avacalhadas aulas do básico. Não mentirei, a Bacega me ensinou uma coisa ou duas, mas isto é assunto para outra postagem.
Comecei a desconfiar que Gilberto ao contrário de mim, era um ser verdadeiramente amoral e não considerava minimamente prioritárias as incumbências discentes. Assim sendo, nas ocasiões em que o horário apresentava algo mais interessante, eu enfrentava o terror do Butantã-USP para ser pontual.
Ocorreu que um dia, durante o período matutino, no ano do senhor de 1985, eu estava parlando com a Juju quando apareceu não sei de onde, o diário do Gil Topete. Na verdade, naquele ponto da evolução, não sabíamos do que se tratava aquela agenda preta, mas como a natureza humana é xereta, logo descobrimos. Os dias - os impressos e os anotados, estavam fora de fase, mas logo vimos pelo padrão das entradas, em order crescente de data, que se tratava de um diário. A caligrafia, por conta do convívio, identificamos como a dele, e com olhos ávidos de curiosidade, começamos a varrer os fatos ali contidos. Estes, fazendo jus, eram mais prolíficos nos meses de férias, antecedendo o começo das aulas - quando os escritos foram tornando-se cada vez mais escassos, até morrerem abruptamente numa página em branco, a alma sem inspiração, a mão sem disposição para empurrar a caneta pelos meandros do tédio.
Tal qual Édipo descobrindo que havia matado o pai e desposado a mãe, grande foi minha surpresa quando constatei que o formato dos dias ali narrados era praticamente um só: "Acordei [na casa de não sei quem], peguei uma carona[até não sei aonde]. Fui para casa, fiz a barba. Fui para o Rose Bom Bom [não sei quem] estava de dj e entrei de graça. Depois no Madame Satã encontrei o guitarrista do [grupo tal] e o baterista da [outra banda]. Peguei uma carona para uma festa da [amiga do amigo da amiga]. Fiquei com [não sei quem]."
Nestas, Gil viveu em primeira pessoa a explosão musical da época. Ainda que um Rockabilly de carteirinha, ele viu de tudo, Legião no começo do começo - sua irmã Marcinha era boa amiga de Renato Russo, que sempre a telefonava, quando em São Paulo. Ira! Nazi sendo seu inimigo número um, ambos disputando o amor de Camila (não a da música). Enfim, tantas bandas cruzaram seu caminho pela noite Paulistana.
Infelizmente creio aqueles rascunhos estarem no mesmo local que a maior parte de minhas memórias. Mas lembro que o diário era gozado. Era a apoteóse do sex, drugs e rock and roll sem as drogas - Topete era mais chegado no cigarro e na birita.
E aqui termina o conto do diário do Gil Topete.
Não percam no próximo episódio... As pesquisas da Maria Aparecida Bacega, a não ser que algum outro(a) aventureiro(a) queira contar este causo.
Tomo guaraná, suco de cajú, goiabada para a sobremeeeeeeeesa...
ddddddd
sexta-feira, maio 08, 2009
segunda-feira, abril 27, 2009
sei lá, mil coisas
1985
Roque Santeiro na Globo
um monte de amigo embarcando num ônibus pra Brasília
pedi demissão do emprego e embarquei no dia seguinte com um amigo meio irmão, 2 fitas cassete (Adoniran e Doors) e um fone de ouvido para dois
Planalto Central, fim de tarde, rodoviária de BSB
céu de Brasília, traço do arquiteto
psicodelia
UNB
uma sala de aula tornada quarto, uns 40 hóspedes
cinema, festas, futebol... e assembléias
quinta-feira
cartazes por toda a universidade convocando uma manifestação secreta para o dia seguinte
alguns ecanos roubam metros de pano e arrumam paus bem grandes
sexta-feira
Sarney vai descer a rampa
estudantes, manifestantes, palavras de ordem
arroz, feijão, saúde e educação
faixas exigem não sei o que
a avacalhação nas veias dos ecanos não deixa por menos
arroz, feijão e pinga com limão
Sarney aponta na rampa
dois ecanos levantam a maior faixa da manifestação
"Sei lá, Sarney, mil coisas"
Sarney desce, sorri e vai embora
os ecanos vão atrás
a manifestação vai atrás
Congresso Nacional
a ECA desvia, a passeata segue
a cúpula tão branquinha, tão acessível
um sobe, outro sobe, vários sobem
a polícia olha
a fumaça rola
um desce, todos descem
nós fizemos isso mesmo ?
Roque Santeiro na Globo
um monte de amigo embarcando num ônibus pra Brasília
pedi demissão do emprego e embarquei no dia seguinte com um amigo meio irmão, 2 fitas cassete (Adoniran e Doors) e um fone de ouvido para dois
Planalto Central, fim de tarde, rodoviária de BSB
céu de Brasília, traço do arquiteto
psicodelia
UNB
uma sala de aula tornada quarto, uns 40 hóspedes
cinema, festas, futebol... e assembléias
quinta-feira
cartazes por toda a universidade convocando uma manifestação secreta para o dia seguinte
alguns ecanos roubam metros de pano e arrumam paus bem grandes
sexta-feira
Sarney vai descer a rampa
estudantes, manifestantes, palavras de ordem
arroz, feijão, saúde e educação
faixas exigem não sei o que
a avacalhação nas veias dos ecanos não deixa por menos
arroz, feijão e pinga com limão
Sarney aponta na rampa
dois ecanos levantam a maior faixa da manifestação
"Sei lá, Sarney, mil coisas"
Sarney desce, sorri e vai embora
os ecanos vão atrás
a manifestação vai atrás
Congresso Nacional
a ECA desvia, a passeata segue
a cúpula tão branquinha, tão acessível
um sobe, outro sobe, vários sobem
a polícia olha
a fumaça rola
um desce, todos descem
nós fizemos isso mesmo ?
terça-feira, abril 21, 2009
Eu prefiro a solidão
A lua já partida;
___As Plêiades também;
A noite semi-exaurida,
___E eu deitada sem ninguém.
Safo - Fragmento 52
E do extinto sim bwana para a blogosfera,
outra das antigas.
***
Eu tinha um amigo
Um puta amigão
Ele era um junkie
Eu digo um junkie campeão
Todos gostavam dele
E embarcavam na travação
Todos se fodiam, baby
Só ele que não
Então loucura por loucura
Eu prefiro a solidão
Eu tinha uma amiga
Um puta avião
Não há homem no mundo
Que por ela não sinta tesão
Todos queriam ela
Ela e algo mais
Meu deus aquele broto
Não tinha um momento de paz
Então loucura por loucura
Deixa pra lá
Eu tinha um inimigo
Um puta canastrão
Meu deus o que eu faria
Se tivesse um três-oitão
Todos queriam matá-lo
Eu não era exceção
Mas seu eu fizesse isso
Eu estaria na prisão
Então loucura por loucura
Eu prefiro a solidão
Faloooooooooou
Daniel
***
___As Plêiades também;
A noite semi-exaurida,
___E eu deitada sem ninguém.
Safo - Fragmento 52
E do extinto sim bwana para a blogosfera,
outra das antigas.
***
Eu tinha um amigo
Um puta amigão
Ele era um junkie
Eu digo um junkie campeão
Todos gostavam dele
E embarcavam na travação
Todos se fodiam, baby
Só ele que não
Então loucura por loucura
Eu prefiro a solidão
Eu tinha uma amiga
Um puta avião
Não há homem no mundo
Que por ela não sinta tesão
Todos queriam ela
Ela e algo mais
Meu deus aquele broto
Não tinha um momento de paz
Então loucura por loucura
Deixa pra lá
Eu tinha um inimigo
Um puta canastrão
Meu deus o que eu faria
Se tivesse um três-oitão
Todos queriam matá-lo
Eu não era exceção
Mas seu eu fizesse isso
Eu estaria na prisão
Então loucura por loucura
Eu prefiro a solidão
Faloooooooooou
Daniel
***
aqui tem
loucura e solidão,
prisão,
puta amigão,
puta avião,
puta canastrão,
três-oitão
segunda-feira, abril 20, 2009
Inconstitucionalissimamente
Salve juventude. Dando continuidade a documentação do contexto político da época,
vai aí uma transcrição para todos os fãs, em especial para o Melquinho.
***
Narrador: Quando Jambo e Ruivão visitam o aquário, encontram a beleza de filhote de foca. Ruivão comete o engano de alimentar a foca com pipoca. E quando os nossos heróis saem do aquário são seguidos. E descobrem a amiga foca quando chegam em casa, mas...
Narrador: Quando Ruivão tenta capturar a escorregadia foca, esta vai água a fora, e Ruivão não sabe nadar.
Jambo: Hmpf! Segure a corda, idiota.
Ruivão: Certo, pode puxar.
Jambo: Rrrmmmrrrmm!
Ruivão: Aaaahhhhh!
Jambo: Ruivão não sabe nadar. Socorro! Socorro! Alguém venha me socorrer!
Foca: Éu! Éu!
Narrador: Salvo por um fio, e barba de foca.
Jambo: Que tal essa? Ruivão, você parece um idiota.
Ruivão: Pois bem, estou sentado em cima de míl dólares. Ei, volte aqui sua foca escorregadia!
Foca: Éu! Éu!
Ruivão: Lá vão os meus mil dólares. Pôxa.
Jambo: E apanhe uma foca de verdade.
Narrador: Certo Jambo, mas não é possível prender uma foca, não quando há encrenca por perto.
Fone de ouvido: Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! Tire-me daqui! Tire-me daqui!
Narrador: Ó! Alguém está em apuros, e antes que alguem tenha tempo de dizer "inconstitucionalissimamente", a amiga foca mergulha fundo, fundo, até o fundo da baía. Mas, que espécie de coisa mais estranha é esta no fim do cabo? E quem, ou o que está lá dentro?
Náufrago: Socorro! Tire-me desta lata de sardinhas!
Foca: Éu! Éu!
Ruivão: Ora vejam só, a amiga foca, de verdade.
Foca: Éu! Éu!
Ruivão: Meus míl dólares.
Foca: Éu! Éu!
Ruivão: Entendi, você vale mesmo seu peso em ouro.
Foca: Éu! Éu! Éu! Éu!
Jambo: Ruivão, escute.
Fone de ouvido: Socorro! Puxe a alavanca! Puxe a alavanca!
Jambo: Esta aqui?
Fone de ouvido: Sim! Esta.
Narrador: Bem, é o Jambo que tenta bancar o salvador. E quando o pesado cabo começa a subir nossos dois amigos...
Foca: Éu! Éu!
Narrador: Ehm, nosso três amigos esperam para ver quem, ou o que está no interior desta misteriosa monstruosidade metálica. Não percam amiguinhos, "O mistério do monstro de metal", o próximo capítulo de Jambo e Ruivão.
Faloooooooooou, beeeeeeeeeijos
Daniel
***
Adendo
Jambo e Ruivão (The Ruff & Reddy Show) foi a primeira produção para TV da dupla de animadores Hanna-Barbera, recém saídos do então recém fechado departamento de animação da Metro-Goldwyn-Mayer. Estreiou em 1957 e foi produzido até 1960.
As maiores palavras da língua portuguesa:
1. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
2. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose
3. Hipopotomonstrosesquipedaliofobia
4. Anticonstitucionalissimamente
5. Oftalmotorrinolaringologista
6. Inconstitucionalissimamente
No episódio número 40, "Blunder Down Under" - transcrito acima - "antidisestablishmentarianism" é a palavra correspondente no texto original.
Fontes: Youtube, Wikipedia
vai aí uma transcrição para todos os fãs, em especial para o Melquinho.
***
Narrador: Quando Jambo e Ruivão visitam o aquário, encontram a beleza de filhote de foca. Ruivão comete o engano de alimentar a foca com pipoca. E quando os nossos heróis saem do aquário são seguidos. E descobrem a amiga foca quando chegam em casa, mas...
Rádio: E agora um boletim especial, uma valiosa foca escapou do aquário e uma recompensa de mil dólares é oferecida pela sua devolução.
Narrador: Quando Ruivão tenta capturar a escorregadia foca, esta vai água a fora, e Ruivão não sabe nadar.
Jambo: Hmpf! Segure a corda, idiota.
Ruivão: Certo, pode puxar.
Jambo: Rrrmmmrrrmm!
Ruivão: Aaaahhhhh!
Jambo: Ruivão não sabe nadar. Socorro! Socorro! Alguém venha me socorrer!
Foca: Éu! Éu!
Narrador: Salvo por um fio, e barba de foca.
Jambo: Que tal essa? Ruivão, você parece um idiota.
Ruivão: Pois bem, estou sentado em cima de míl dólares. Ei, volte aqui sua foca escorregadia!
Foca: Éu! Éu!
Ruivão: Lá vão os meus mil dólares. Pôxa.
Jambo: E apanhe uma foca de verdade.
Narrador: Certo Jambo, mas não é possível prender uma foca, não quando há encrenca por perto.
Fone de ouvido: Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! Tire-me daqui! Tire-me daqui!
Narrador: Ó! Alguém está em apuros, e antes que alguem tenha tempo de dizer "inconstitucionalissimamente", a amiga foca mergulha fundo, fundo, até o fundo da baía. Mas, que espécie de coisa mais estranha é esta no fim do cabo? E quem, ou o que está lá dentro?
Náufrago: Socorro! Tire-me desta lata de sardinhas!
Foca: Éu! Éu!
Ruivão: Ora vejam só, a amiga foca, de verdade.
Foca: Éu! Éu!
Ruivão: Meus míl dólares.
Foca: Éu! Éu!
Ruivão: Entendi, você vale mesmo seu peso em ouro.
Foca: Éu! Éu! Éu! Éu!
Jambo: Ruivão, escute.
Fone de ouvido: Socorro! Puxe a alavanca! Puxe a alavanca!
Jambo: Esta aqui?
Fone de ouvido: Sim! Esta.
Narrador: Bem, é o Jambo que tenta bancar o salvador. E quando o pesado cabo começa a subir nossos dois amigos...
Foca: Éu! Éu!
Narrador: Ehm, nosso três amigos esperam para ver quem, ou o que está no interior desta misteriosa monstruosidade metálica. Não percam amiguinhos, "O mistério do monstro de metal", o próximo capítulo de Jambo e Ruivão.
Faloooooooooou, beeeeeeeeeijos
Daniel
***
Adendo
Jambo e Ruivão (The Ruff & Reddy Show) foi a primeira produção para TV da dupla de animadores Hanna-Barbera, recém saídos do então recém fechado departamento de animação da Metro-Goldwyn-Mayer. Estreiou em 1957 e foi produzido até 1960.
As maiores palavras da língua portuguesa:
1. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
2. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose
3. Hipopotomonstrosesquipedaliofobia
4. Anticonstitucionalissimamente
5. Oftalmotorrinolaringologista
6. Inconstitucionalissimamente
No episódio número 40, "Blunder Down Under" - transcrito acima - "antidisestablishmentarianism" é a palavra correspondente no texto original.
Fontes: Youtube, Wikipedia
sexta-feira, abril 17, 2009
quarta-feira, abril 15, 2009
quem vai contar essa história ?
Well, I remember
when we used to sit
in the government yard
in Trenchtown
ob-observin' those hipocrites ...
?
sábado, abril 11, 2009
sexta-feira, abril 10, 2009
Watchmen
quem viu o filme (além de João Brito e eu) ?
quem leu o gibi ?
quem vê o smiley como o ícone de uma geração ?
bjs
quinta-feira, abril 09, 2009
O dia que desligaram o Tancredo
Jah une e Jah separa.
Peter Tosh
***
Olá amiguinhos! As armas e os barões assinalados en passant pelo progenitor Gustavo nesta postagem fazem parte deste episódio que marcou para mim aquele ano. O ano que, segundo o Cezinha, não acabou...
I
O sol nasceu no dia 22 de Abril de 1985. A manhã de segunda-feira fez-se clara porem nebulosa com um fino véu branco e translúcido cobrindo a cidade, deixando o céu de um azul mais claro. Naquele momento eu sofria no mínimo de grave intoxicação alcoólica. Acordei com a cara enfiada no colchão:
1. Com uma das três piores ressacas de minha vida
2. Mais morto do que vivo
3. Desejando que o mundo acabasse o quanto antes
O complexo de culpa foi mais forte. Eu já havia cabulado a primeira semana inteira do meu ano de calouro, a baixa frequência resultando inclusive numa dura que recebi do então querúbico Lusão de Marília, que como eu, tambem estava matriculado no curso de Rádio e Televisão, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, conhecido então pela sigla RTV ECA-USP.
Assim sendo, e repetidamente posicionando um pé a frente do outro, evacuei o apartamento no predinho do alto da rua Wizard, na Vila Madalena onde eu morava. Em passos incertos consegui quebrar a barreira da dor e quando dei por mim já havia cruzado a fronteira com Pinheiros, e aguardava o transporte público, no ponto de ônibus da rua Cardeal Arcoverde.
E por que raios a banca da esquina com a Fradique Coutinho estava fechada? Onde eu me distraia, as vezes lendo as chamadas do Planeta Diário - "Maluf se entrega a polícia!". Esta pergunta e muitas outras seriam em breve respondidas.
O quietude do ar e da rua, o Butantã-USP vazio, nada fazia sentido. Parecia um feriado. E era. Quando desci próximo da Aliança Francesa e do Rei das Batidas (segundo me consta conhecido hoje em dia como Batidão), deparei-me com o ponto de carona às moscas. O absurdo me chacoalhou forte. Perguntei atônito ao primeiro passante o por que deste estado, como se eu tivesse caído de paraquedas na cortina e nos créditos de "A Guerra dos Mundos".
"Tancredo morreu". A voz quase sem emoção, em retrospecto um pouco irritada, de alguem que assim como eu, perdeu a viagem. Dois passes desperdiçados, no mínimo.
II
E não era difícil sentir-se um trouxa naquela situação. Afinal, foi tão envolvente o drama em que o país se encontrara desde 14 de Março daquele mesmo ano, véspera da posse de Tancredo Neves, o primeiro presidente do Brasil democraticamente eleito desde Jânio Quadros em 1960.
Internado as pressas e em estado grave no Hospital de Base de Brasília, Tancredo foi transferido no dia 26 de Março para o Hospital das Clínicas de São Paulo. Lá ficou até o dia de sua partida, desta para a melhor. Permaneceu seu vice, José Sarney, empossado.
E quantos de nós, os calouros, não fizemos ao menos uma visita a entrada do dito hospital? Que para alguns, como o lendário Gil Topete, era no caminho de casa mesmo. Virou quase que um point, com momentos de descontração e encontros inusitados, enquanto tomávamos as dores e vivíamos tão próximos e intensamente o desenrolar da tragédia. Dentro do HC, em coma, o potencial salvador da pátria, o ex-primeiro ministro do governo de Jango, agora ligado a um respirador, com as tripas estendidas vez por outra, ao longo das paredes da sala de operação.
Teorias sobre conspirações, possíveis atentados, circulavam sussurradas, ante o temor de que o monstro semi-adormecido da ditadura novamente despertasse, soltando fogo pelas ventas, trazendo mais duas décadas de retrocesso.
As velas queimavam, as equipes de reportagem e o povo se aglutinavam. O impasse prosseguia. Noite após noite. Dia após dia.
E ocorreu que numa daquelas noites, quando me encontrava tambem desligado, no torpor da cerveja, talvez algumas cachaças e sabe deus mais o que, as últimas notas do maquinário hospitalar tocaram: blip... blip... blip... bliiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... O reality show chegou ao fim. Passava das dez quando a dolorosa notícia foi divulgada. A segunda-feira seguinte, feriado nacional, e oito dias de luto oficial; Sarney assim o decretou. Mais rumores. Morrer convenientemente no final do horário nobre, logo depois do Fantástico, o show da vida. Será? Só imaginação...
III
Bem... já que este trouxa estava no ponto, por que não arriscar e ir até as quebradas, procurar pelos meus pares? Sem demora consegui uma carona, e nem tive que disputar o veículo com outra meia-dúzia de dedões, dada a circunstância.
Do motorista não lembro se era homem ou mulher, preto ou branco, jovem ou velho. Mas lembro bem da incerteza no silêncio que compartilhamos durante aqueles poucos quilômetros.
Chegando ao meu destino final, de fato os encontrei; no gol Ney, no ataque Fábio punk. Eu me dei por contente no meio campo e havia lá mais um chapa do Fábio, um proto careca da turma do Falcão, que morava no CRUSP, tocava nos Excomungados e vez por outra dava as caras.
Com esta escalação desfalcadíssima o time foi a campo - missão impossível número um, achar um bar aberto. A opção mais óbvia estando fechada, tivemos que jogar fora de casa e nos dirigimos ao bar da psicologia, a beira do regato.
Negativo elemento, repito, negativo - aquele bar tambem estava fechado e não havia sombra de psicóloga no pedaço. Aos leitores com RG mais alto, que porventura encontrem as palavras cá tecladas um tanto desapegadas da realidade, eu vos informo, o mundo ainda não conhecia, repito, estava por chegar a telefonia móvel. Isso mesmo, tentem imaginar uma existência despojada de torpedos, facebook e twitter (redes socias - nota para a galera de 2033 e além). Assim vivíamos na pré-história da comunicação. Emitindo grunhidos indecifráveis, gírias a muito esquecidas e olhando os reflexos na superfície do córrego, quiçá rumo ao mar, ao longo do leito de concreto.
Naquele ponto da evolução ainda não sabíamos que estávamos prestes, primeira missão impossível já um estrondoso fracasso de público e crítica, a nos aventurarmos novamente, desta feita na missão impossível número dois do dia.
Não lembro se foi Fábio ou Ney quem perguntou, suas vozes igualmente suaves e ligeiramente anasaladas, se alguem tinha um. Ninguem. Logo outra sugestão provocava risos; garimpar o CA. Assim chamávamos nosso centro acadêmico, indubitavelmente o mais avacalhado entre todos os da gloriosa Universidade de São Paulo. Aquele desperdício de tijolos e cimento, com as funções de acomodar reuniões da turma do fumacê, a ocasional partida de pebolim e vez por outra um picote. Assim diziam as más línguas - outra que as contem.
E lá, vasculhando minuciosamente a espessa camada de "jornais, panfletos e revistas" (leia-se lixo) que cobria todo o chão do CA, começamos a nossa demanda do santo graal, achando um belô aqui, um galhinho acolá e mais adiante uma semente.
Após revirarmos toda a área em alguns minutos de intensa labuta, o bêise até que não saiu de mau tamanho. Depois de fumarmos, dispersamos como a névoa, sob o sol do meio-dia e do céu, de um azul já mais profundo. Cada qual seguindo seu caminho, com uma perspectiva positiva da vida e dos fatos.
E neste parágrafo termina a postagem sobre o dia que desligaram o Tancredo que na verdade, conforme descrito, foi na noite anterior, domingo dia 21 de Abril, 1985. Espero que tenha trazido lembranças agridoces a todos, e que os mesmos sintam-se compelidos a deixarem suas memórias, ao lado desta e das outras, que aqui já se encontravam.
Bjs, abs, sdds
Daniel
***
Direitos reservados © MMIX ECA 85 - O RETORNO
Todos os personagens representados são fictícios.
Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
As palavras, não se limitando a, intoxicação, cerveja, cachaça, psicologia, bêise, fumacê, belô, galhinho e semente são empregadas no sentido figurado e não propõem correlações, homólogas ou análogas, com entidades desta dimensão ou outras, blá, blá, blá.
ECA 85 - O RETORNO respeita sua privacidade, para sair deste beco navegue para
http://www.vaisecatar.com.br/tafudidomermao/japegueiteuemeo.php?trouxaid=4534563
Mensagem abusiva? Navegue para
http://www.isquecemeu.com.br/semchancejaera.php?valeu=txau
Peter Tosh
***
Olá amiguinhos! As armas e os barões assinalados en passant pelo progenitor Gustavo nesta postagem fazem parte deste episódio que marcou para mim aquele ano. O ano que, segundo o Cezinha, não acabou...
I
O sol nasceu no dia 22 de Abril de 1985. A manhã de segunda-feira fez-se clara porem nebulosa com um fino véu branco e translúcido cobrindo a cidade, deixando o céu de um azul mais claro. Naquele momento eu sofria no mínimo de grave intoxicação alcoólica. Acordei com a cara enfiada no colchão:
1. Com uma das três piores ressacas de minha vida
2. Mais morto do que vivo
3. Desejando que o mundo acabasse o quanto antes
O complexo de culpa foi mais forte. Eu já havia cabulado a primeira semana inteira do meu ano de calouro, a baixa frequência resultando inclusive numa dura que recebi do então querúbico Lusão de Marília, que como eu, tambem estava matriculado no curso de Rádio e Televisão, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, conhecido então pela sigla RTV ECA-USP.
Assim sendo, e repetidamente posicionando um pé a frente do outro, evacuei o apartamento no predinho do alto da rua Wizard, na Vila Madalena onde eu morava. Em passos incertos consegui quebrar a barreira da dor e quando dei por mim já havia cruzado a fronteira com Pinheiros, e aguardava o transporte público, no ponto de ônibus da rua Cardeal Arcoverde.
E por que raios a banca da esquina com a Fradique Coutinho estava fechada? Onde eu me distraia, as vezes lendo as chamadas do Planeta Diário - "Maluf se entrega a polícia!". Esta pergunta e muitas outras seriam em breve respondidas.
O quietude do ar e da rua, o Butantã-USP vazio, nada fazia sentido. Parecia um feriado. E era. Quando desci próximo da Aliança Francesa e do Rei das Batidas (segundo me consta conhecido hoje em dia como Batidão), deparei-me com o ponto de carona às moscas. O absurdo me chacoalhou forte. Perguntei atônito ao primeiro passante o por que deste estado, como se eu tivesse caído de paraquedas na cortina e nos créditos de "A Guerra dos Mundos".
"Tancredo morreu". A voz quase sem emoção, em retrospecto um pouco irritada, de alguem que assim como eu, perdeu a viagem. Dois passes desperdiçados, no mínimo.
II
E não era difícil sentir-se um trouxa naquela situação. Afinal, foi tão envolvente o drama em que o país se encontrara desde 14 de Março daquele mesmo ano, véspera da posse de Tancredo Neves, o primeiro presidente do Brasil democraticamente eleito desde Jânio Quadros em 1960.
Internado as pressas e em estado grave no Hospital de Base de Brasília, Tancredo foi transferido no dia 26 de Março para o Hospital das Clínicas de São Paulo. Lá ficou até o dia de sua partida, desta para a melhor. Permaneceu seu vice, José Sarney, empossado.
E quantos de nós, os calouros, não fizemos ao menos uma visita a entrada do dito hospital? Que para alguns, como o lendário Gil Topete, era no caminho de casa mesmo. Virou quase que um point, com momentos de descontração e encontros inusitados, enquanto tomávamos as dores e vivíamos tão próximos e intensamente o desenrolar da tragédia. Dentro do HC, em coma, o potencial salvador da pátria, o ex-primeiro ministro do governo de Jango, agora ligado a um respirador, com as tripas estendidas vez por outra, ao longo das paredes da sala de operação.
Teorias sobre conspirações, possíveis atentados, circulavam sussurradas, ante o temor de que o monstro semi-adormecido da ditadura novamente despertasse, soltando fogo pelas ventas, trazendo mais duas décadas de retrocesso.
As velas queimavam, as equipes de reportagem e o povo se aglutinavam. O impasse prosseguia. Noite após noite. Dia após dia.
E ocorreu que numa daquelas noites, quando me encontrava tambem desligado, no torpor da cerveja, talvez algumas cachaças e sabe deus mais o que, as últimas notas do maquinário hospitalar tocaram: blip... blip... blip... bliiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... O reality show chegou ao fim. Passava das dez quando a dolorosa notícia foi divulgada. A segunda-feira seguinte, feriado nacional, e oito dias de luto oficial; Sarney assim o decretou. Mais rumores. Morrer convenientemente no final do horário nobre, logo depois do Fantástico, o show da vida. Será? Só imaginação...
III
Bem... já que este trouxa estava no ponto, por que não arriscar e ir até as quebradas, procurar pelos meus pares? Sem demora consegui uma carona, e nem tive que disputar o veículo com outra meia-dúzia de dedões, dada a circunstância.
Do motorista não lembro se era homem ou mulher, preto ou branco, jovem ou velho. Mas lembro bem da incerteza no silêncio que compartilhamos durante aqueles poucos quilômetros.
Chegando ao meu destino final, de fato os encontrei; no gol Ney, no ataque Fábio punk. Eu me dei por contente no meio campo e havia lá mais um chapa do Fábio, um proto careca da turma do Falcão, que morava no CRUSP, tocava nos Excomungados e vez por outra dava as caras.
Com esta escalação desfalcadíssima o time foi a campo - missão impossível número um, achar um bar aberto. A opção mais óbvia estando fechada, tivemos que jogar fora de casa e nos dirigimos ao bar da psicologia, a beira do regato.
Negativo elemento, repito, negativo - aquele bar tambem estava fechado e não havia sombra de psicóloga no pedaço. Aos leitores com RG mais alto, que porventura encontrem as palavras cá tecladas um tanto desapegadas da realidade, eu vos informo, o mundo ainda não conhecia, repito, estava por chegar a telefonia móvel. Isso mesmo, tentem imaginar uma existência despojada de torpedos, facebook e twitter (redes socias - nota para a galera de 2033 e além). Assim vivíamos na pré-história da comunicação. Emitindo grunhidos indecifráveis, gírias a muito esquecidas e olhando os reflexos na superfície do córrego, quiçá rumo ao mar, ao longo do leito de concreto.
Naquele ponto da evolução ainda não sabíamos que estávamos prestes, primeira missão impossível já um estrondoso fracasso de público e crítica, a nos aventurarmos novamente, desta feita na missão impossível número dois do dia.
Não lembro se foi Fábio ou Ney quem perguntou, suas vozes igualmente suaves e ligeiramente anasaladas, se alguem tinha um. Ninguem. Logo outra sugestão provocava risos; garimpar o CA. Assim chamávamos nosso centro acadêmico, indubitavelmente o mais avacalhado entre todos os da gloriosa Universidade de São Paulo. Aquele desperdício de tijolos e cimento, com as funções de acomodar reuniões da turma do fumacê, a ocasional partida de pebolim e vez por outra um picote. Assim diziam as más línguas - outra que as contem.
E lá, vasculhando minuciosamente a espessa camada de "jornais, panfletos e revistas" (leia-se lixo) que cobria todo o chão do CA, começamos a nossa demanda do santo graal, achando um belô aqui, um galhinho acolá e mais adiante uma semente.
Após revirarmos toda a área em alguns minutos de intensa labuta, o bêise até que não saiu de mau tamanho. Depois de fumarmos, dispersamos como a névoa, sob o sol do meio-dia e do céu, de um azul já mais profundo. Cada qual seguindo seu caminho, com uma perspectiva positiva da vida e dos fatos.
E neste parágrafo termina a postagem sobre o dia que desligaram o Tancredo que na verdade, conforme descrito, foi na noite anterior, domingo dia 21 de Abril, 1985. Espero que tenha trazido lembranças agridoces a todos, e que os mesmos sintam-se compelidos a deixarem suas memórias, ao lado desta e das outras, que aqui já se encontravam.
Bjs, abs, sdds
Daniel
***
Direitos reservados © MMIX ECA 85 - O RETORNO
Todos os personagens representados são fictícios.
Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
As palavras, não se limitando a, intoxicação, cerveja, cachaça, psicologia, bêise, fumacê, belô, galhinho e semente são empregadas no sentido figurado e não propõem correlações, homólogas ou análogas, com entidades desta dimensão ou outras, blá, blá, blá.
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terça-feira, abril 07, 2009
segunda-feira, abril 06, 2009
1985 – Epílogo
Um Brasil com aspirações de grandeza lutava em 1985 com o intuito de ganhar o status de primeiro mundo. Tínhamos liberdade política e de expressão, havia um calendário de eleições, mas a economia não ajudava em meados da década perdida. O indomável dragão da inflação estava prestes a incinerar uma série de planos econômicos mirabolantes, o primeiro deles o Cruzado I, que seria lançado em fevereiro de 1986 e nocauteado meses depois, congelado pelo chamado estelionato eleitoral do segundo semestre. Mas a economia é coisa meio chata para estudantes de comunicação, cujo conhecimento matemático não costuma ultrapassar as quatro operações básicas e, quando muito, uma regra de três simples.
Vivíamos meio indexados e isso bastava para tocar a vida de aluno de faculdade púbica, comendo no bandejão da USP, frequentando o clube e a piscina do Cepeusp, indo a cinemas, cineclubes, festas e shows para estudantes. Muitos de nós já trabalhavam, faziam estágio ou frilas, como o Nélio e o Idarni, que viraram bancários no Banespa e no Itaú, respectivamente. Ayrton Senna começava a despontar em sua Lotus preta e Madonna surgia como estrela internacional. O buraco da camada do ozônio, tema discutido hoje por crianças da pré-escola, havia sido descoberto por cientistas e divulgado para o mundo, e os destroços do Titanic foram localizados naquele ano.
No Brasil, enquanto a novela Roque Santeiro se transformava em sucesso absoluto de audiência e tema de conversas na faculdade, eu me mudava para um apartamento em Alto de Pinheiros, o mocó do João Brito. De manhã, ia de carona com ele para a USP, na sua CG 125 cilindradas, e já me impressionava o tráfego intenso da Marginal Pinheiros quando cruzávamos a Ponte da Praça Panamericana. A primeira epopéia do Perseu Mas isso não durou muito. No final de outubro, ganhei do meu pai, de aniversário de 19 anos, um Fusca zero bala, motor 1.600 cilindradas, batizado de “Perseu” e maldosamente apelidado de “Hospital Universitário” em função das duas letras que compunham sua placa: HU. Como não poderia deixar de ser, o fusquinha teve vida atribulada.
Já na estréia, fui a Ribeirão Preto buscá-lo na concessionária e retornei imediatamente a São Paulo para um importante compromisso. Era feriado de Finados e a turma da ECA, em peso, havia alugado uma casa em Caraguatatuba para desfrutar de um ensolarado final de semana prolongado. Passei no mocó já de noite para pegar o Idarni (que por aqueles tempos também fazia do local seu endereço), o João Brito e mais um carona que desceria junto até a praia. Como de costume, o Idarni atrasou vindo do trabalho no Itaú e chegou resmungando com razão, ao melhor estilo de um descendente de espanhol e paulistano zona norte, tipo “mora mano”. Quase havia sido demitido naquela noite tal a quantidade de ligações telefônicas que recebera durante o expediente, na compensação de cheques, dos colegas e amigos que queriam informações a respeito da casa que ele negociara e alugara em Caraguatatuba. Nunca me esqueço o dia em que o conheci e ele contava algo a respeito de alguém que saltara da Torre Eiffel e se esborrachara no chão fazendo um buraco de um metro de profundidade no solo. Indaguei então: “Um metro? Tudo isso?”, ao que ele respondeu: “Porra, meu, eu não estava lá pra medir mas ...”
Acalmados os ânimos, relaxamos e partimos rumo ao litoral norte, de Perseu novo, eu, exultante, ao volante, e pegamos a Marginal Tietê. Na altura da Penha, já de madrugada, havia um desvio e acabamos nos perdendo no confuso trânsito da zona leste. Ao passar por um ponto de táxi, vimos um carro parado e um motorista dentro, esperando passageiro enquanto tirava uma tranqüila soneca. Engatei ré para emparelhar os carros e perguntar qual a melhor maneira de retornar à Marginal Tietê. Por distração, inexperiência ou barbeiragem, ou uma junção dos três, acabei raspando o meu paralama traseiro na frente do táxi. Saí em pânico do Perseu, achando que o estrago tinha sido grande, que o feriado estava perdido e que meu carro novo já era ...
Felizmente, nada disso ocorrera, havia sido só um amassado no fusca e praticamente um arranhão no táxi, mas obviamente o motorista não gostou de ser acordado daquela maneira esdrúxula por um moleque barbeiro. Para piorar as coisas, não achei nada melhor do que desmaiar enquanto negociávamos com o sujeito. Assustei meus companheiros com esta corajosa e emblemática atitude, e o motorista, ainda mais espantado com toda aquela situação em seu ponto de táxi, aceitou qualquer “30 dinheiros” da época e nos deixou partir. Prudentemente, o Idarni, experiente conhecedor de São Paulo e de mecânica de automóveis, assumiu a direção do Perseu e chegamos à Caraguatatuba sem maiores problemas. Como não poderia deixar de ser, ninguém viu o sol naqueles cinzentos dias em “Caraguatachuva”.
Éramos em mais ou menos 25 pessoas, homens e mulheres numa mesma casa, quartos com vários beliches, música, areia e aquela xaropada de brincadeiras, piadas, pouca comida, bebida barata, jogos e pernilongos. Enterramos o João Brito na areia, deixando apenas a cabeça do lado de fora, tiramos fotos e tomamos muita, mas muita chuva. Poderia ter sido melhor se o tempo estivesse aberto, e eu estava com a moral baixa em função do amassado do fusca.
O rei das monografias
Com a chegada do fim do primeiro ano da ECA, estávamos preocupados com a monografia que tínhamos que escrever e entregar, valendo nota para as principais matérias do básico. Esta época me impressionava a questão da ditadura e da resistência armada ao regime. Conhecia bem o nome das organizações guerrilheiras, como VPR e ALN; seus líderes, como Lamarca e Marighela; suas mortes na Bahia e na Alameda Casa Branca; seus feitos, como seqüestros de embaixadores e fuga ao cerco do Vale do Ribeira; e seus algozes, como o Fleury e o capitão Albernaz. Escrevi um texto de 15 ou 20 páginas na máquina elétrica de datilografar “Práxis” com foco histórico, e nem me lembro o que tudo isso tinha haver com comunicação. As professoras até que gostaram da minha ladainha carregada em tintas contra a ditadura e que vestia a esquerda armada com uma roupagem heróica. Tirei um 8,5 qualquer.
Mas o grande herói das monografias foi o Roger. Empenhado a ter uma renda que não fosse a parca mesada oferecida pelo pai, tentara inicialmente vender enciclopédias. Ficou dois dias engravatado batendo de porta em porta e pediu demissão. A Alon já o cortejara para levá-lo ao semanário “Voz da Unidade”, mas antes de aceitar este trabalho de comunista que o levaria a passar nove meses na Alemanha Oriental em 1986 e aprender a comer criancinhas, no bom sentido, Roger agarrou uma outra oportunidade, bem mais capitalista. De texto fluente e sem medo de ser feliz em suas iniciativas, Roger se ofereceu aos colegas para escrever suas monografias de final de ano. Inicialmente, negociou duas ou três em troca de “100 dinheiros” cada uma delas. A notícia se espalhou e logo ele comercializou mais cinco monografias, abocanhando cerca de “800 dinheiros”, algo em torno de uns R$ 2,5 mil hoje, ou seja, dinheiro gordo para um estudante de 20 anos que morava na casa dos pais e começava a traficar conteúdo e direitos autorais.
Feita a negociação, faltava apenas um detalhe: escrever os oito trabalhos, e fazer todo mundo passar de ano, inclusive ele. Saltava aos olhos a despreocupação do Roger um mês antes da data de entrega das monografias. Se já estávamos tensos em produzir uma só, a nossa, imagine escrever oito de uma vez. Ele explicava: “Vou passar uma semana lendo os textos do Adorno e da Escola de Frankfurt, e outros que os professores distribuíram ao longo do semestre. Depois, na semana seguinte, escrevo uma monografia por dia, alterno parágrafos, enxerto expressões como ‘por outro lado’ e ‘de acordo com o que se pensava então’, e finalizo os trabalhos com conclusões do tipo ‘enquanto o imperialismo e a indústria cultural manipularem as massas, a classe dominante manterá seus privilégios às custas dos menos favorecidos’, etc, etc”. Dito e feito, dito e escrito.
No prazo combinado, o Roger entregou todas as monografias a seus financiadores, os quais não divulgo os nomes neste post para não macular suas carreiras e biografias. E o pior: a nota mais baixa obtida por ele foi oito, superior ao sete recebido pelo Nélio, hoje um escritor de novelas capaz de escrever 30 laudas de texto ficcional num só dia. Ou o Roger escreveu e enganou muito bem, ou as professoras nem leram as monografias atentamente para perceber as semelhanças. Fico com a primeira opção, já que o Roger mostrou em sua carreira ser capaz de outras proezas como esta. E assim foi terminando o ano de 1985, com outras inúmeras histórias, viagens e fatos absolutamente impublicáveis, a não ser que eu troque as identidades dos envolvidos. Mas deixa pra lá, estes episódios a gente apenas comenta à boca pequena ou relembra com um gostinho de saudade no coração.
Guto
Vivíamos meio indexados e isso bastava para tocar a vida de aluno de faculdade púbica, comendo no bandejão da USP, frequentando o clube e a piscina do Cepeusp, indo a cinemas, cineclubes, festas e shows para estudantes. Muitos de nós já trabalhavam, faziam estágio ou frilas, como o Nélio e o Idarni, que viraram bancários no Banespa e no Itaú, respectivamente. Ayrton Senna começava a despontar em sua Lotus preta e Madonna surgia como estrela internacional. O buraco da camada do ozônio, tema discutido hoje por crianças da pré-escola, havia sido descoberto por cientistas e divulgado para o mundo, e os destroços do Titanic foram localizados naquele ano.
No Brasil, enquanto a novela Roque Santeiro se transformava em sucesso absoluto de audiência e tema de conversas na faculdade, eu me mudava para um apartamento em Alto de Pinheiros, o mocó do João Brito. De manhã, ia de carona com ele para a USP, na sua CG 125 cilindradas, e já me impressionava o tráfego intenso da Marginal Pinheiros quando cruzávamos a Ponte da Praça Panamericana. A primeira epopéia do Perseu Mas isso não durou muito. No final de outubro, ganhei do meu pai, de aniversário de 19 anos, um Fusca zero bala, motor 1.600 cilindradas, batizado de “Perseu” e maldosamente apelidado de “Hospital Universitário” em função das duas letras que compunham sua placa: HU. Como não poderia deixar de ser, o fusquinha teve vida atribulada.
Já na estréia, fui a Ribeirão Preto buscá-lo na concessionária e retornei imediatamente a São Paulo para um importante compromisso. Era feriado de Finados e a turma da ECA, em peso, havia alugado uma casa em Caraguatatuba para desfrutar de um ensolarado final de semana prolongado. Passei no mocó já de noite para pegar o Idarni (que por aqueles tempos também fazia do local seu endereço), o João Brito e mais um carona que desceria junto até a praia. Como de costume, o Idarni atrasou vindo do trabalho no Itaú e chegou resmungando com razão, ao melhor estilo de um descendente de espanhol e paulistano zona norte, tipo “mora mano”. Quase havia sido demitido naquela noite tal a quantidade de ligações telefônicas que recebera durante o expediente, na compensação de cheques, dos colegas e amigos que queriam informações a respeito da casa que ele negociara e alugara em Caraguatatuba. Nunca me esqueço o dia em que o conheci e ele contava algo a respeito de alguém que saltara da Torre Eiffel e se esborrachara no chão fazendo um buraco de um metro de profundidade no solo. Indaguei então: “Um metro? Tudo isso?”, ao que ele respondeu: “Porra, meu, eu não estava lá pra medir mas ...”
Acalmados os ânimos, relaxamos e partimos rumo ao litoral norte, de Perseu novo, eu, exultante, ao volante, e pegamos a Marginal Tietê. Na altura da Penha, já de madrugada, havia um desvio e acabamos nos perdendo no confuso trânsito da zona leste. Ao passar por um ponto de táxi, vimos um carro parado e um motorista dentro, esperando passageiro enquanto tirava uma tranqüila soneca. Engatei ré para emparelhar os carros e perguntar qual a melhor maneira de retornar à Marginal Tietê. Por distração, inexperiência ou barbeiragem, ou uma junção dos três, acabei raspando o meu paralama traseiro na frente do táxi. Saí em pânico do Perseu, achando que o estrago tinha sido grande, que o feriado estava perdido e que meu carro novo já era ...
Felizmente, nada disso ocorrera, havia sido só um amassado no fusca e praticamente um arranhão no táxi, mas obviamente o motorista não gostou de ser acordado daquela maneira esdrúxula por um moleque barbeiro. Para piorar as coisas, não achei nada melhor do que desmaiar enquanto negociávamos com o sujeito. Assustei meus companheiros com esta corajosa e emblemática atitude, e o motorista, ainda mais espantado com toda aquela situação em seu ponto de táxi, aceitou qualquer “30 dinheiros” da época e nos deixou partir. Prudentemente, o Idarni, experiente conhecedor de São Paulo e de mecânica de automóveis, assumiu a direção do Perseu e chegamos à Caraguatatuba sem maiores problemas. Como não poderia deixar de ser, ninguém viu o sol naqueles cinzentos dias em “Caraguatachuva”.
Éramos em mais ou menos 25 pessoas, homens e mulheres numa mesma casa, quartos com vários beliches, música, areia e aquela xaropada de brincadeiras, piadas, pouca comida, bebida barata, jogos e pernilongos. Enterramos o João Brito na areia, deixando apenas a cabeça do lado de fora, tiramos fotos e tomamos muita, mas muita chuva. Poderia ter sido melhor se o tempo estivesse aberto, e eu estava com a moral baixa em função do amassado do fusca.
O rei das monografias
Com a chegada do fim do primeiro ano da ECA, estávamos preocupados com a monografia que tínhamos que escrever e entregar, valendo nota para as principais matérias do básico. Esta época me impressionava a questão da ditadura e da resistência armada ao regime. Conhecia bem o nome das organizações guerrilheiras, como VPR e ALN; seus líderes, como Lamarca e Marighela; suas mortes na Bahia e na Alameda Casa Branca; seus feitos, como seqüestros de embaixadores e fuga ao cerco do Vale do Ribeira; e seus algozes, como o Fleury e o capitão Albernaz. Escrevi um texto de 15 ou 20 páginas na máquina elétrica de datilografar “Práxis” com foco histórico, e nem me lembro o que tudo isso tinha haver com comunicação. As professoras até que gostaram da minha ladainha carregada em tintas contra a ditadura e que vestia a esquerda armada com uma roupagem heróica. Tirei um 8,5 qualquer.
Mas o grande herói das monografias foi o Roger. Empenhado a ter uma renda que não fosse a parca mesada oferecida pelo pai, tentara inicialmente vender enciclopédias. Ficou dois dias engravatado batendo de porta em porta e pediu demissão. A Alon já o cortejara para levá-lo ao semanário “Voz da Unidade”, mas antes de aceitar este trabalho de comunista que o levaria a passar nove meses na Alemanha Oriental em 1986 e aprender a comer criancinhas, no bom sentido, Roger agarrou uma outra oportunidade, bem mais capitalista. De texto fluente e sem medo de ser feliz em suas iniciativas, Roger se ofereceu aos colegas para escrever suas monografias de final de ano. Inicialmente, negociou duas ou três em troca de “100 dinheiros” cada uma delas. A notícia se espalhou e logo ele comercializou mais cinco monografias, abocanhando cerca de “800 dinheiros”, algo em torno de uns R$ 2,5 mil hoje, ou seja, dinheiro gordo para um estudante de 20 anos que morava na casa dos pais e começava a traficar conteúdo e direitos autorais.
Feita a negociação, faltava apenas um detalhe: escrever os oito trabalhos, e fazer todo mundo passar de ano, inclusive ele. Saltava aos olhos a despreocupação do Roger um mês antes da data de entrega das monografias. Se já estávamos tensos em produzir uma só, a nossa, imagine escrever oito de uma vez. Ele explicava: “Vou passar uma semana lendo os textos do Adorno e da Escola de Frankfurt, e outros que os professores distribuíram ao longo do semestre. Depois, na semana seguinte, escrevo uma monografia por dia, alterno parágrafos, enxerto expressões como ‘por outro lado’ e ‘de acordo com o que se pensava então’, e finalizo os trabalhos com conclusões do tipo ‘enquanto o imperialismo e a indústria cultural manipularem as massas, a classe dominante manterá seus privilégios às custas dos menos favorecidos’, etc, etc”. Dito e feito, dito e escrito.
No prazo combinado, o Roger entregou todas as monografias a seus financiadores, os quais não divulgo os nomes neste post para não macular suas carreiras e biografias. E o pior: a nota mais baixa obtida por ele foi oito, superior ao sete recebido pelo Nélio, hoje um escritor de novelas capaz de escrever 30 laudas de texto ficcional num só dia. Ou o Roger escreveu e enganou muito bem, ou as professoras nem leram as monografias atentamente para perceber as semelhanças. Fico com a primeira opção, já que o Roger mostrou em sua carreira ser capaz de outras proezas como esta. E assim foi terminando o ano de 1985, com outras inúmeras histórias, viagens e fatos absolutamente impublicáveis, a não ser que eu troque as identidades dos envolvidos. Mas deixa pra lá, estes episódios a gente apenas comenta à boca pequena ou relembra com um gostinho de saudade no coração.
Guto
quinta-feira, abril 02, 2009
1985 - Parte II
O Brasil respirava mais liberdade e democracia em 1985 após a grande movimentação pró-diretas já no ano anterior. Um Sarney ainda desacreditado, já que viveria seus dias de glória nos meses seguintes ao Plano Cruzado em fevereiro de 1986, governava um país contaminado pela inflação e pela indexação. O papel dinheiro não tinha valor, desvalorizava-se 15, 20, 25% de um mês para o outro. Por isso, eu não recebia mesadas, mas semanadas. Todos os domingos, telefonava de São Paulo para Ribeirão Preto, contava aos meus pais as novidades e pedia uma quantia próxima do que eu deveria gastar na semana seguinte. Na segunda-feira, meu pai depositava no Bradesco este valor, eu sacava no cartão magnético e administrava os gastos até o próximo domingo.
Na ECA, diante de uma qualidade de ensino questionável, usufruíamos os novos ventos de liberdade ainda em plena ressaca da ditadura. Não havia mais governo militar, generais ou repressão, Erasmo Dias e Newton Cruz já não assustavam os universitários. A esquerda, três anos antes da queda do Muro de Berlim, ainda seduzia estudantes e ingênuos de plantão, e teria que amargar a derrota de Fernando Henrique Cardoso e Suplicy para Jânio Quadros nas eleições para prefeito de São Paulo no final do ano – quem não se lembra da virada janista e do episódio das nádegas indevidas? Pois bem, diante deste cenário morno, nosso maior compromisso era com a diversão.
Criamos o “Amural”, um semanário colado no mural do primeiro andar do prédio do Curso Básico da ECA-USP, no saguão em frente às escadas. Um tal de Pietro Holfmeister, personagem fictício, era o mentor, editorialista e eminência parda da publicação, que funcionava livremente. Bastava a quem quisesse escrever qualquer coisa e pregar na parede, provavelmente às segundas-feiras, em nome do Pietro, que estava resolvido. Nos reuníamos uns quatro ou cinco desocupados, lá pelas 10 horas, enquanto enforcávamos alguma aula que estava sendo ministrada no auditório no fundo do corredor, e dávamos risada com as besteiras e inutilidades que estampávamos no mural. O destino não permitiu que o Amural crescesse e ultrapassasse as fronteiras da USP, galgando os degraus da fama e oprimindo o rival carioca “Planeta Diário”. Perdemos a chance de expandir e sermos contratados pela Rede Globo – ao invés do “Casseta & Planeta Urgente”, teríamos hoje o “Amural Urgente” nas noites de terça-feira na telinha global ...
Primeiramente, fomos atacados em artigo colado no mural pelo segundoanista e invejoso Ricardo Lima, acho que do Curso de Cinema, que acusou os calouros “amuralistas” de pretensiosos, amorais, desprovidos de graça e absolutamente infantis em suas matérias e em seu humor. É claro que aceitamos as críticas de modo natural, afinal incentivávamos o pluralismo de idéias e uma opinião divergente estimulava a reflexão e o nosso desejo de aprimoramento. Queimamos imediatamente o artigo do Ricardo e inundamos o mural do Amural com respostas sutis e indiretas. O mais brando dos textos começava da seguinte maneira: “Ricardo, seu filho do cão sarnento, neto do chacal pelado, bisneto do abutre depenado, você é um grandíssimo filho da ...” e por aí seguia. O Amural mostrou força e coesão, e que estava preparado para crescer e mexer com os grandes interesses vigentes na época.
O episódio do cartaz
As aulas e disciplinas que dominavam a grade de ensino no primeiro ano da ECA para todos os estudantes, dirigidas ao conhecimento básico da comunicação, não iam bem. Pouca adesão, conteúdo modorrento, reclamação de alunos, professores burocráticos e empertigados, enfim, um clima de certo desânimo e desleixo vigorava no aprendizado, mas havia euforia no quesito diversão. Assim, decidi arrancar risadas e impressionar meus colegas amuralistas com o conteúdo da próxima edição do semanário. Comprei uma Playboy e recortei a foto da coelhinha mais apetitosa, em posição de quatro, escancaradamente insinuante, colei num cartaz e datilografei na máquina de escrever - computadores eram coisa de laboratório – a seguinte legenda: “Esta é a professora Fulana de Tal, de Filosofia da Comunicação, há quatro décadas atrás, quando ainda tinha alguma coisa a oferecer aos alunos”. Ao lado, em outros textos e fotos não assinados, fiz referências altamente abonadoras aos professores Soneca e Himencloaca.
Claro que boa parte dos alunos riu e os demais amuralistas reconheceram que eu havia “mandado bem” quando o cartaz foi afixado no Amural. E claro que os professores citados não gostaram. Da noite para o dia o cartaz sumiu, os professores citados iniciaram uma greve docente, se recusando a dar aulas a nossa turma, e foi aberto um processo que poderia resultar em sindicância e expulsão dos responsáveis pelos “insultos e graves ofensas”. Pensei com os meus botões que eu tinha ido longe demais com esta história de liberdade de expressão ... Na verdade, o cartaz foi a gota d’água que detonou todo o processo. Alunos e os três professores citados na brincadeira já andavam se estranhando. Se estávamos na melhor faculdade de comunicação do país, queríamos aulas e professores melhores. E estes queriam alunos menos insubordinados e que não atrapalhassem suas carreiras acadêmicas.
No processo de investigação do ocorrido, mantive-me oculto por razões óbvias. O Roger e o Kafa, representantes de classe dos alunos, salvaram a minha pátria e sou grato a eles até hoje, pois seguraram o rojão nas negociações de paz, nas quais foram acusados de co-responsáveis pelo acintoso cartaz. Ficamos sem aula com os referidos docentes (não que tivéssemos notado isso) por algumas semanas, mas depois os ânimos foram apaziguados e tudo, ou quase tudo, voltou ao normal. Se eu, hoje, aos 42 anos, encontrasse a renomada Professora Fulana de Tal, com seus prováveis sessenta e poucos anos, a maioria dedicados às teorias da comunicação, pediria desculpas a ela. Acho que exagerei um pouquinho. Mas 24 anos atrás eu era um garoto numa escola de comunicação descobrindo o mundo, apenas querendo ser engraçado para as menininhas e não merecia ser expulso. Ela e os outros dois poderiam ter levado mais na esportiva e se dedicado a melhorar suas capacidades de lecionar e atrair os alunos com aulas mais instigantes e reveladoras para jovens estudantes.
O fato é que, após o episódio, o Amural foi devidamente sepultado. O cartaz nunca mais foi visto e desconfio que até hoje encontra-se em alguma gaveta perdida da sala de professores da ECA. Encerrava-se ali uma promissora página do jornalismo denúncia. O novo humor brasileiro e a crítica escrachada acabaram ceifados nos corredores ecanos, e seus idealizadores partiram para novas empreitadas. Mas agora que sou réu confesso, espero que o suposto ou possível crime de calúnia, difamação e vilipêndio que cometi já esteja prescrito.
Vídeos
Uma das aulas que atraía mais alunos e fomentava maior interesse era a da Professora Baccega, uma mulher mais despojada, que se sentava de pernas cruzadas em cima da mesa, fumava e dizia palavrões para discutir os níveis da fala. Se não me falha a memória, foi para esta disciplina que fomos divididos em grupos com o objetivo de produzir um vídeo como trabalho semestral. Assim como o dono da bola leva vantagem quando reúne os amigos para jogar futebol, fui beneficiado pelo fato de ser um dos únicos na turma a possuir uma câmera de vídeo, uma antiga betamovie.
Assim, ganhei um dos papéis na trama “Kaiadiquatru”, produção cujo título parodiava um cult dos cinemas daqueles tempos, o “Koyaniskatsi”, ou algo parecido, filme que abordava com imagens fortes e trilha sonora minimalista a decadência da civilização moderna, algo como a vida urbana e industrial escravizando o ser humano e seu destino. Já o nosso vídeo mostrava uma república composta por estudantes heterogêneos, que se comunicavam de maneira diferenciada em função de suas origens. Eu era o “Carlão”, um agroboy do interior extremamente formal e que utilizada a norma culta para se expressar, e havia o divertido e coloquial Rubens, que dada a sua liberalidade de linguagem e de costumes morria de Aids na trama. Tudo é muito ruim no vídeo – a história, a edição, o som e especialmente a minha interpretação.
Em uma das cenas, o Alon, que fazia o papel de fazendeiro pai do Carlão, me dá um cheque e instruções para viver na cidade grande. Patético! A Alon, titular hoje de um dos blogs políticos mais respeitados do país, era mais velho do que os outros alunos da classe. Judeu e comunista, trabalhava na “Voz da Unidade”, semanário do Partidão no país. Gozador e uma verdadeira enciclopédia de conhecimento (tinha estudado medicina até o quinto ano da USP), Alon estava na ECA apenas para conseguir o diploma e se divertir com o bando de pirralhos ao redor, mas na prática ele já era jornalista, tanto que não chegou a concluir o curso, encontrou coisa mais interessante e produtiva para fazer.
Tê-lo como “pai” no vídeo foi engraçado e irônico, já que fazia o papel de um latifundiário conservador, representando exatamente aquilo que ele mais lutava contra. Ao longo das últimas duas décadas, Alon chegou a comandar a redação da Folha de S. Paulo e o UOL, substituiu o Valdomiro, aquele do esquema do Zé Dirceu, no cargo que o pivô do escândalo do jogo do bicho possuía no Palácio do Planalto, além de assessorar grandes políticos e participar de campanhas. Hoje, ele dá as cartas no Correio Braziliense, tem um programa de entrevistas na TV e gosta de atacar o Álvaro Uribe e o imperialismo colombiano na América do Sul em seu blog. A última vez em que nos encontramos foi em Ribeirão Preto, no Estádio Santa Cruz, em 1995, na final do campeonato paulista entre Palmeiras e Corinthians.
Mas voltando a nossa videocassetada, em outra cena, gravada pelo Cezinha em alguma calçada do Alto de Pinheiros, protagonizei uma briga de rua com o Antony Helms, que se formou em cinema e se transformou em escritor, inclusive com livros para adolescentes. Os efeitos e defeitos da cena são bisonhos! Vale ainda destacar a cena da festa, gravada no mocó (apê) que dividi durante todo o segundo semestre de 1985 com o João Brito, ou Johnny Bright, ou Zumbrito, companheiro também de viagem à Bolívia e a Machupichu em julho de 1986.
O apartamento ficava num conjunto habitacional do BNH na Avenida Diógenes Ribeiro de Lima. Ao todo, devia somar uns 70 metros quadrados de área, mas fomos capazes de colocar mais de 40 pessoas lá dentro e gravar a farra, ou quase toda ela. Imagino a felicidade dos vizinhos! E assim finalizamos a superprodução, um raro documento de criatividade e mau gosto de estudantes de primeiro ano de meados década de 80. Dizem que o Cezinha, ou o Clovis Veneno, ainda teriam até hoje uma cópia VHS da obra prima que recebeu nota 9 com louvor da professora, principalmente em razão da originalidade e empenho de seus realizadores.
O outro vídeo, “A modelo”, estrelado pela bela e séria Simone, gerou algumas discussões entre seus idealizadores, a maioria gente de personalidade. Acabou vencendo a versão quase autoral do Daniel Matvienko, grande amigo no sentido literal, com seus dois metros de altura. Músico e outsider, Daniel deixou sua marca de sucesso também com a música tema da produção, que contava a ascensão, glória e desgraça de uma top model: Era a modelo mais bem paga do país Vivia rodeada e se sentia muito só Nas horas vagas cheirava muito pó Ela era assim e gostava de mim Daniel tinha outras pérolas, como as historinhas do bandido dos três tiros, o blues “Meio dia no Texas” e o hit “Estive mal, estive em coma, estou legal”. O cara se mandou para Nova York e depois para Londres, onde tivemos uma divertida convivência em 1991, nos parques e nas noites da capital inglesa.
Certa feita, como ela gostava de iniciar suas histórias, foi surrado pra valer por uma gangue do sul de Londres e chegou de olho roxo e boca sangrando num apartamento onde havia uma pequena festa. Imediatamente indaguei detalhes do ocorrido, mas ele apenas deu uma risada marota, abriu a jaqueta de couro preta e desbotada e tirou de dentro uma garrafa de whisky cheia até a metade: “O que importa é que eu salvei isto”, comemorou. No final de 2008 recebi um e-mail do Daniel, ainda em Londres, com as fotos de sua mais recente viagem de bicicleta do Nepal ao Tibete. “1985” requer uma terceira parte, onde voltarei com mais algumas histórias de um ano atrevido e marcante em minha singela existência.
Guto
Na ECA, diante de uma qualidade de ensino questionável, usufruíamos os novos ventos de liberdade ainda em plena ressaca da ditadura. Não havia mais governo militar, generais ou repressão, Erasmo Dias e Newton Cruz já não assustavam os universitários. A esquerda, três anos antes da queda do Muro de Berlim, ainda seduzia estudantes e ingênuos de plantão, e teria que amargar a derrota de Fernando Henrique Cardoso e Suplicy para Jânio Quadros nas eleições para prefeito de São Paulo no final do ano – quem não se lembra da virada janista e do episódio das nádegas indevidas? Pois bem, diante deste cenário morno, nosso maior compromisso era com a diversão.
Criamos o “Amural”, um semanário colado no mural do primeiro andar do prédio do Curso Básico da ECA-USP, no saguão em frente às escadas. Um tal de Pietro Holfmeister, personagem fictício, era o mentor, editorialista e eminência parda da publicação, que funcionava livremente. Bastava a quem quisesse escrever qualquer coisa e pregar na parede, provavelmente às segundas-feiras, em nome do Pietro, que estava resolvido. Nos reuníamos uns quatro ou cinco desocupados, lá pelas 10 horas, enquanto enforcávamos alguma aula que estava sendo ministrada no auditório no fundo do corredor, e dávamos risada com as besteiras e inutilidades que estampávamos no mural. O destino não permitiu que o Amural crescesse e ultrapassasse as fronteiras da USP, galgando os degraus da fama e oprimindo o rival carioca “Planeta Diário”. Perdemos a chance de expandir e sermos contratados pela Rede Globo – ao invés do “Casseta & Planeta Urgente”, teríamos hoje o “Amural Urgente” nas noites de terça-feira na telinha global ...
Primeiramente, fomos atacados em artigo colado no mural pelo segundoanista e invejoso Ricardo Lima, acho que do Curso de Cinema, que acusou os calouros “amuralistas” de pretensiosos, amorais, desprovidos de graça e absolutamente infantis em suas matérias e em seu humor. É claro que aceitamos as críticas de modo natural, afinal incentivávamos o pluralismo de idéias e uma opinião divergente estimulava a reflexão e o nosso desejo de aprimoramento. Queimamos imediatamente o artigo do Ricardo e inundamos o mural do Amural com respostas sutis e indiretas. O mais brando dos textos começava da seguinte maneira: “Ricardo, seu filho do cão sarnento, neto do chacal pelado, bisneto do abutre depenado, você é um grandíssimo filho da ...” e por aí seguia. O Amural mostrou força e coesão, e que estava preparado para crescer e mexer com os grandes interesses vigentes na época.
O episódio do cartaz
As aulas e disciplinas que dominavam a grade de ensino no primeiro ano da ECA para todos os estudantes, dirigidas ao conhecimento básico da comunicação, não iam bem. Pouca adesão, conteúdo modorrento, reclamação de alunos, professores burocráticos e empertigados, enfim, um clima de certo desânimo e desleixo vigorava no aprendizado, mas havia euforia no quesito diversão. Assim, decidi arrancar risadas e impressionar meus colegas amuralistas com o conteúdo da próxima edição do semanário. Comprei uma Playboy e recortei a foto da coelhinha mais apetitosa, em posição de quatro, escancaradamente insinuante, colei num cartaz e datilografei na máquina de escrever - computadores eram coisa de laboratório – a seguinte legenda: “Esta é a professora Fulana de Tal, de Filosofia da Comunicação, há quatro décadas atrás, quando ainda tinha alguma coisa a oferecer aos alunos”. Ao lado, em outros textos e fotos não assinados, fiz referências altamente abonadoras aos professores Soneca e Himencloaca.
Claro que boa parte dos alunos riu e os demais amuralistas reconheceram que eu havia “mandado bem” quando o cartaz foi afixado no Amural. E claro que os professores citados não gostaram. Da noite para o dia o cartaz sumiu, os professores citados iniciaram uma greve docente, se recusando a dar aulas a nossa turma, e foi aberto um processo que poderia resultar em sindicância e expulsão dos responsáveis pelos “insultos e graves ofensas”. Pensei com os meus botões que eu tinha ido longe demais com esta história de liberdade de expressão ... Na verdade, o cartaz foi a gota d’água que detonou todo o processo. Alunos e os três professores citados na brincadeira já andavam se estranhando. Se estávamos na melhor faculdade de comunicação do país, queríamos aulas e professores melhores. E estes queriam alunos menos insubordinados e que não atrapalhassem suas carreiras acadêmicas.
No processo de investigação do ocorrido, mantive-me oculto por razões óbvias. O Roger e o Kafa, representantes de classe dos alunos, salvaram a minha pátria e sou grato a eles até hoje, pois seguraram o rojão nas negociações de paz, nas quais foram acusados de co-responsáveis pelo acintoso cartaz. Ficamos sem aula com os referidos docentes (não que tivéssemos notado isso) por algumas semanas, mas depois os ânimos foram apaziguados e tudo, ou quase tudo, voltou ao normal. Se eu, hoje, aos 42 anos, encontrasse a renomada Professora Fulana de Tal, com seus prováveis sessenta e poucos anos, a maioria dedicados às teorias da comunicação, pediria desculpas a ela. Acho que exagerei um pouquinho. Mas 24 anos atrás eu era um garoto numa escola de comunicação descobrindo o mundo, apenas querendo ser engraçado para as menininhas e não merecia ser expulso. Ela e os outros dois poderiam ter levado mais na esportiva e se dedicado a melhorar suas capacidades de lecionar e atrair os alunos com aulas mais instigantes e reveladoras para jovens estudantes.
O fato é que, após o episódio, o Amural foi devidamente sepultado. O cartaz nunca mais foi visto e desconfio que até hoje encontra-se em alguma gaveta perdida da sala de professores da ECA. Encerrava-se ali uma promissora página do jornalismo denúncia. O novo humor brasileiro e a crítica escrachada acabaram ceifados nos corredores ecanos, e seus idealizadores partiram para novas empreitadas. Mas agora que sou réu confesso, espero que o suposto ou possível crime de calúnia, difamação e vilipêndio que cometi já esteja prescrito.
Vídeos
Uma das aulas que atraía mais alunos e fomentava maior interesse era a da Professora Baccega, uma mulher mais despojada, que se sentava de pernas cruzadas em cima da mesa, fumava e dizia palavrões para discutir os níveis da fala. Se não me falha a memória, foi para esta disciplina que fomos divididos em grupos com o objetivo de produzir um vídeo como trabalho semestral. Assim como o dono da bola leva vantagem quando reúne os amigos para jogar futebol, fui beneficiado pelo fato de ser um dos únicos na turma a possuir uma câmera de vídeo, uma antiga betamovie.
Assim, ganhei um dos papéis na trama “Kaiadiquatru”, produção cujo título parodiava um cult dos cinemas daqueles tempos, o “Koyaniskatsi”, ou algo parecido, filme que abordava com imagens fortes e trilha sonora minimalista a decadência da civilização moderna, algo como a vida urbana e industrial escravizando o ser humano e seu destino. Já o nosso vídeo mostrava uma república composta por estudantes heterogêneos, que se comunicavam de maneira diferenciada em função de suas origens. Eu era o “Carlão”, um agroboy do interior extremamente formal e que utilizada a norma culta para se expressar, e havia o divertido e coloquial Rubens, que dada a sua liberalidade de linguagem e de costumes morria de Aids na trama. Tudo é muito ruim no vídeo – a história, a edição, o som e especialmente a minha interpretação.
Em uma das cenas, o Alon, que fazia o papel de fazendeiro pai do Carlão, me dá um cheque e instruções para viver na cidade grande. Patético! A Alon, titular hoje de um dos blogs políticos mais respeitados do país, era mais velho do que os outros alunos da classe. Judeu e comunista, trabalhava na “Voz da Unidade”, semanário do Partidão no país. Gozador e uma verdadeira enciclopédia de conhecimento (tinha estudado medicina até o quinto ano da USP), Alon estava na ECA apenas para conseguir o diploma e se divertir com o bando de pirralhos ao redor, mas na prática ele já era jornalista, tanto que não chegou a concluir o curso, encontrou coisa mais interessante e produtiva para fazer.
Tê-lo como “pai” no vídeo foi engraçado e irônico, já que fazia o papel de um latifundiário conservador, representando exatamente aquilo que ele mais lutava contra. Ao longo das últimas duas décadas, Alon chegou a comandar a redação da Folha de S. Paulo e o UOL, substituiu o Valdomiro, aquele do esquema do Zé Dirceu, no cargo que o pivô do escândalo do jogo do bicho possuía no Palácio do Planalto, além de assessorar grandes políticos e participar de campanhas. Hoje, ele dá as cartas no Correio Braziliense, tem um programa de entrevistas na TV e gosta de atacar o Álvaro Uribe e o imperialismo colombiano na América do Sul em seu blog. A última vez em que nos encontramos foi em Ribeirão Preto, no Estádio Santa Cruz, em 1995, na final do campeonato paulista entre Palmeiras e Corinthians.
Mas voltando a nossa videocassetada, em outra cena, gravada pelo Cezinha em alguma calçada do Alto de Pinheiros, protagonizei uma briga de rua com o Antony Helms, que se formou em cinema e se transformou em escritor, inclusive com livros para adolescentes. Os efeitos e defeitos da cena são bisonhos! Vale ainda destacar a cena da festa, gravada no mocó (apê) que dividi durante todo o segundo semestre de 1985 com o João Brito, ou Johnny Bright, ou Zumbrito, companheiro também de viagem à Bolívia e a Machupichu em julho de 1986.
O apartamento ficava num conjunto habitacional do BNH na Avenida Diógenes Ribeiro de Lima. Ao todo, devia somar uns 70 metros quadrados de área, mas fomos capazes de colocar mais de 40 pessoas lá dentro e gravar a farra, ou quase toda ela. Imagino a felicidade dos vizinhos! E assim finalizamos a superprodução, um raro documento de criatividade e mau gosto de estudantes de primeiro ano de meados década de 80. Dizem que o Cezinha, ou o Clovis Veneno, ainda teriam até hoje uma cópia VHS da obra prima que recebeu nota 9 com louvor da professora, principalmente em razão da originalidade e empenho de seus realizadores.
O outro vídeo, “A modelo”, estrelado pela bela e séria Simone, gerou algumas discussões entre seus idealizadores, a maioria gente de personalidade. Acabou vencendo a versão quase autoral do Daniel Matvienko, grande amigo no sentido literal, com seus dois metros de altura. Músico e outsider, Daniel deixou sua marca de sucesso também com a música tema da produção, que contava a ascensão, glória e desgraça de uma top model: Era a modelo mais bem paga do país Vivia rodeada e se sentia muito só Nas horas vagas cheirava muito pó Ela era assim e gostava de mim Daniel tinha outras pérolas, como as historinhas do bandido dos três tiros, o blues “Meio dia no Texas” e o hit “Estive mal, estive em coma, estou legal”. O cara se mandou para Nova York e depois para Londres, onde tivemos uma divertida convivência em 1991, nos parques e nas noites da capital inglesa.
Certa feita, como ela gostava de iniciar suas histórias, foi surrado pra valer por uma gangue do sul de Londres e chegou de olho roxo e boca sangrando num apartamento onde havia uma pequena festa. Imediatamente indaguei detalhes do ocorrido, mas ele apenas deu uma risada marota, abriu a jaqueta de couro preta e desbotada e tirou de dentro uma garrafa de whisky cheia até a metade: “O que importa é que eu salvei isto”, comemorou. No final de 2008 recebi um e-mail do Daniel, ainda em Londres, com as fotos de sua mais recente viagem de bicicleta do Nepal ao Tibete. “1985” requer uma terceira parte, onde voltarei com mais algumas histórias de um ano atrevido e marcante em minha singela existência.
Guto
1985 - Parte I
Deixar a casa dos pais, mudar de cidade, começar um curso universitário e usufruir em toda plenitude a idade de 18 anos com a certeza quase absoluta da imortalidade. Toda uma vida pela frente, muita diversão, aventura e emoção de sobra à espera, um mundo a ser descoberto e explorado.
Foi com este espírito construtivo e convicto, recheado de boas expectativas, que desembarquei em São Paulo, vindo de Ribeirão Preto, em fevereiro de 1985 para estudar Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Fui morar a uma quadra da Avenida Paulista, ao lado do Hotel Maksoud, num pequeno mas confortável quarto de empregada reformado no apartamento de meus padrinhos. Logo no primeiro mês, presenciei da janela do ônibus Butantã-USP, sempre que o coletivo passava em frente ao Hospital das Clínicas na Avenida Rebouças em direção a USP, a agonia de Tancredo Neves. Uma multidão de jornalistas, entre eles Carlos Nascimento, e populares aguardava diariamente no local o próximo boletim médico enquanto o nosso presidente definhava, era seguidamente submetido a cirurgias inúteis e literalmente esfriado até bater as botas em abril.
Deste período, ficou marcado uma capa do jornal humorístico “Planeta Diário” com aquele tradicional passatempo “Ligue os pontos e veja que figura vai dar”. Era o abdômen presidencial com os pontos cirúrgicos. Na faculdade, começava o entrosamento com os futuros comunicólogos: De Jornalismo, Roger, Melk, Fabio Maranhão, Teresa, Ana Luisa, Ângelo, João Brito, Sibele, Denise Itatiba, Alon, Carlinha, Rodrigo Chileno, Fernandinho Fulaneti, Luiz Guilherme, Elsie e Mônica Sanches; da Editoração, Nélio, Martha, Yury, Bea e Tili; da Rádio e TV, Idarni, Lusão, Cezinha, Kafa, Déia, Juliana, Daniel, Dalarosa e Silvia; de Cinema, Antony Helms, Marcio Langeani, Leiva, Eduardo Caron, Ivo, Tales e Ewerton; de Relações Públicas, Estela, Andréia, Carla, Simone e Fernanda; de Publicidade, Gibotti, Alessandrinha, Rubens e Fabiana; de Biblioteconomia, Marnie; de Artes Cênicas, Lucia Romano. Dos outros anos, Bufa, Jaime, Zé Roberto, Manga, Alcides, os dois Serginhos e o Aldo, entre tantos outros calouros e veteranos.
De início, rolou uma integração na torcida do trio Estevam, Ângelo e Elisa na acirrada disputa estudantil do programa de TV “Quem sabe, sabe”, comandado por Randal Juliano, acusado posteriormente de ter colaborado com a ditadura. Fomos bem, mas não levamos. Rendeu ao menos uma saída para os bares do Paraíso. E, num encontro etílico gastronômico no Bixiga, exagerei na falta de educação à mesa e ganhei o selvagem apelido de Conan, o bárbaro.
A epidemia da Aids começava a adquirir proporções alarmantes e minha geração foi a primeira a sofrer suas conseqüências, forçando os mais precavidos a levar em consideração um comportamento sexual mais responsável. Embora ainda considerada doença essencialmente gay, assustava ver as vítimas definharem. A turma de Publicidade até colou no outdoor em frente à ECA e ao gramado onde jogávamos bola um cartaz, escrito em letras garrafais, com o aviso “CUIDAIDS”.
Mas as festas eram animadas, tanto a primeira, na república localizada numa travessa da Marginal Tietê logo atrás da Tok Stok, quanto a segunda, em Pinheiros, entre a Teodoro Sampaio e a Cardeal Arcoverde, com muito destilado barato, fumaça e, na caixa, Smiths, Frank goes to Holywood, The Cure, Tears for Fears, U2, Duran Duran, Ulraje a Rigor, Blitz, Paralamas, Titãs, Ira, RPM, Barão Vermelho, Jovem Guarda, Dire Straits, Stones, The Doors, The Clash, Police, B52, New Order, etc. Na estrada Tempos de boas viagens, como para o Rio de Janeiro, em companhia dos hoje bem sucedidos jornalistas Roger Ferreira, da Fator F, e Melchíades Filho, da Folha. Fomos ao Noites Cariocas, no Morro da Urca, assistir ao RPM, e ao Parque Laje, ver o Ultraje.
Em julho, batemos eu, Nélio, Roger, Déia e Alessandrinha de táxi, partindo do terminal do Tietê, para Belo Horizonte, já que não havia mais passagens de ônibus.
Lá, conhecemos a escultural Fabiana, e fomos todos para Ouro Preto. Na cidade histórica, protagonizei um estúpido episódio. Depois de tomar umas e outras nos bares da cidade, comecei a desafiar quem estava ao meu lado para um braço de ferro. Depois de duas ou três vitórias, virei para o bar inteiro e bradei: “Mais algum otário gostaria de perder?” O clima esquentou, venci mais uma e fui salvo pelo Nélio, que me tirou daquela fria antes que eu levasse porrada ou estocadas.
O Nélio, hoje um promissor escritor de novelas, não teve muita sorte naquela viagem. Acostumei a vê-lo, nos últimos 25 anos, sempre triunfando com seu vozeirão e sua incrível capacidade de falar besteiras, fazer trocadilhos e deixar seu interlocutor amuado e diminuído, sem reação. Naquela Ouro Preto de 1985 ele foi literalmente nocauteado pelas palavras, frases e gestos de um estudante de Farmácia chamado William, restando a meu amigo se esconder debaixo da mesa. Anos depois soubemos que o William havia se matado – a vida tinha perdido graça.
Por fim, fizemos uma incursão ao Pico do Itacolomi passando por trilhas, cachoeiras, uma caverrna e muita canseira. O que ficou desta conquista das montanhas de Minas, além da paisagem exuberante, foi o conto da bolacha. Esfomeados no alto da serra e imbuídos do mais sincero espírito altruísta, eu e o Nélio ludibriamos o crédulo Roger na contagem dos biscoitos, deixando para ele não muito mais do que míseros farelos. O Roger, como sempre, levou tudo na esportiva e sem rancor, caso contrário não teria me convidado para ser seu padrinho de casamento.
No próximo capítulo de “1985” contarei os episódios do “Amural”, o mais engraçado jornal insignificante de todos os tempos; do cartaz que gerou uma greve de professores; dos vídeos “Kaiadiquatru” e “A modelo”; e do incrível vendedor de monografias.
Guto
Foi com este espírito construtivo e convicto, recheado de boas expectativas, que desembarquei em São Paulo, vindo de Ribeirão Preto, em fevereiro de 1985 para estudar Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Fui morar a uma quadra da Avenida Paulista, ao lado do Hotel Maksoud, num pequeno mas confortável quarto de empregada reformado no apartamento de meus padrinhos. Logo no primeiro mês, presenciei da janela do ônibus Butantã-USP, sempre que o coletivo passava em frente ao Hospital das Clínicas na Avenida Rebouças em direção a USP, a agonia de Tancredo Neves. Uma multidão de jornalistas, entre eles Carlos Nascimento, e populares aguardava diariamente no local o próximo boletim médico enquanto o nosso presidente definhava, era seguidamente submetido a cirurgias inúteis e literalmente esfriado até bater as botas em abril.
Deste período, ficou marcado uma capa do jornal humorístico “Planeta Diário” com aquele tradicional passatempo “Ligue os pontos e veja que figura vai dar”. Era o abdômen presidencial com os pontos cirúrgicos. Na faculdade, começava o entrosamento com os futuros comunicólogos: De Jornalismo, Roger, Melk, Fabio Maranhão, Teresa, Ana Luisa, Ângelo, João Brito, Sibele, Denise Itatiba, Alon, Carlinha, Rodrigo Chileno, Fernandinho Fulaneti, Luiz Guilherme, Elsie e Mônica Sanches; da Editoração, Nélio, Martha, Yury, Bea e Tili; da Rádio e TV, Idarni, Lusão, Cezinha, Kafa, Déia, Juliana, Daniel, Dalarosa e Silvia; de Cinema, Antony Helms, Marcio Langeani, Leiva, Eduardo Caron, Ivo, Tales e Ewerton; de Relações Públicas, Estela, Andréia, Carla, Simone e Fernanda; de Publicidade, Gibotti, Alessandrinha, Rubens e Fabiana; de Biblioteconomia, Marnie; de Artes Cênicas, Lucia Romano. Dos outros anos, Bufa, Jaime, Zé Roberto, Manga, Alcides, os dois Serginhos e o Aldo, entre tantos outros calouros e veteranos.
De início, rolou uma integração na torcida do trio Estevam, Ângelo e Elisa na acirrada disputa estudantil do programa de TV “Quem sabe, sabe”, comandado por Randal Juliano, acusado posteriormente de ter colaborado com a ditadura. Fomos bem, mas não levamos. Rendeu ao menos uma saída para os bares do Paraíso. E, num encontro etílico gastronômico no Bixiga, exagerei na falta de educação à mesa e ganhei o selvagem apelido de Conan, o bárbaro.
A epidemia da Aids começava a adquirir proporções alarmantes e minha geração foi a primeira a sofrer suas conseqüências, forçando os mais precavidos a levar em consideração um comportamento sexual mais responsável. Embora ainda considerada doença essencialmente gay, assustava ver as vítimas definharem. A turma de Publicidade até colou no outdoor em frente à ECA e ao gramado onde jogávamos bola um cartaz, escrito em letras garrafais, com o aviso “CUIDAIDS”.
Mas as festas eram animadas, tanto a primeira, na república localizada numa travessa da Marginal Tietê logo atrás da Tok Stok, quanto a segunda, em Pinheiros, entre a Teodoro Sampaio e a Cardeal Arcoverde, com muito destilado barato, fumaça e, na caixa, Smiths, Frank goes to Holywood, The Cure, Tears for Fears, U2, Duran Duran, Ulraje a Rigor, Blitz, Paralamas, Titãs, Ira, RPM, Barão Vermelho, Jovem Guarda, Dire Straits, Stones, The Doors, The Clash, Police, B52, New Order, etc. Na estrada Tempos de boas viagens, como para o Rio de Janeiro, em companhia dos hoje bem sucedidos jornalistas Roger Ferreira, da Fator F, e Melchíades Filho, da Folha. Fomos ao Noites Cariocas, no Morro da Urca, assistir ao RPM, e ao Parque Laje, ver o Ultraje.
Em julho, batemos eu, Nélio, Roger, Déia e Alessandrinha de táxi, partindo do terminal do Tietê, para Belo Horizonte, já que não havia mais passagens de ônibus.
Lá, conhecemos a escultural Fabiana, e fomos todos para Ouro Preto. Na cidade histórica, protagonizei um estúpido episódio. Depois de tomar umas e outras nos bares da cidade, comecei a desafiar quem estava ao meu lado para um braço de ferro. Depois de duas ou três vitórias, virei para o bar inteiro e bradei: “Mais algum otário gostaria de perder?” O clima esquentou, venci mais uma e fui salvo pelo Nélio, que me tirou daquela fria antes que eu levasse porrada ou estocadas.O Nélio, hoje um promissor escritor de novelas, não teve muita sorte naquela viagem. Acostumei a vê-lo, nos últimos 25 anos, sempre triunfando com seu vozeirão e sua incrível capacidade de falar besteiras, fazer trocadilhos e deixar seu interlocutor amuado e diminuído, sem reação. Naquela Ouro Preto de 1985 ele foi literalmente nocauteado pelas palavras, frases e gestos de um estudante de Farmácia chamado William, restando a meu amigo se esconder debaixo da mesa. Anos depois soubemos que o William havia se matado – a vida tinha perdido graça.
Por fim, fizemos uma incursão ao Pico do Itacolomi passando por trilhas, cachoeiras, uma caverrna e muita canseira. O que ficou desta conquista das montanhas de Minas, além da paisagem exuberante, foi o conto da bolacha. Esfomeados no alto da serra e imbuídos do mais sincero espírito altruísta, eu e o Nélio ludibriamos o crédulo Roger na contagem dos biscoitos, deixando para ele não muito mais do que míseros farelos. O Roger, como sempre, levou tudo na esportiva e sem rancor, caso contrário não teria me convidado para ser seu padrinho de casamento.
No próximo capítulo de “1985” contarei os episódios do “Amural”, o mais engraçado jornal insignificante de todos os tempos; do cartaz que gerou uma greve de professores; dos vídeos “Kaiadiquatru” e “A modelo”; e do incrível vendedor de monografias.
Guto
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