sexta-feira, junho 19, 2009

Rádio Pirata

Bom rapaziada, a idade avança, as memórias retrocedem e, como dizem aqui nesta ilha, vou "raspando o fundo do barril" mas este é mais um caso verídico que acho que aconteceu em oito cinco, o Cesinha e o Lusão que o confirme ou desminta.

Na época estava na moda uma onda de transformação social com o uso da tecnologia e as emergentes rádios piratas eram o bom exemplo. Muito se falava mas pouco se sabia então um partido, não lembro exatamente quem, lá da RTV e talvez alguns representantes dicentes de outros departamentos decidiram fazer uma vaquinha para comprar os componentes necessários para produzir um transmissor. "Produzir" sendo um termo utópico pois o conhecimento conjunto de eletrônica era limitado.

Vejo entre as nuvens do tempo um pequeno grupo na Rua Santa Ifigênia, 50% idealista, 50% porralouca e bota de lambuja mais uns 50% empreendedor, indo de loja em loja, comprando os resistores e capacitores, dissipador de calor e o todo poderoso e caro cristal - segundo me lembro a alma do transmissor, que estabeleceria em última análise o quão distante poderíamos encontrar ouvintes dispostos a compatilharem de nossos gostos musicais, opiniões e preconceitos.

Lá próximo da Praça do Relógio encontra-se até hoje o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo. A noite, sempre achei os prédios do Crusp a feição mais bela do panorama arquitetônico da USP. A raia de remo próxima. As janelas iluminadas aleatoriamente. Pareciam peças de dominó, prontas a serem empurradas, uma derrubando a próxima em cadeia.

Chegamos lá com a muamba, dentro de um pequeno saco plástico transparente. Ibiúna indicou o residente capaz de ajudar a realização de nosso plano, acho que seu nome era Tufik mas que chamarei de Habib, por pura falta de memória.

O encontro não foi bem, e não foi para menos, ao menos de minha parte não fui cordial. Queríamos a porra do transmissor o quanto antes e tudo que se encontrava entre nós e o equipamento pronto era um obstáculo.

Vejo no passado distante o esquema eletrônico, simples. Cópia xerox. Será a tendência do cosmos o caos e a complexidade? Após a entrega fomos cheios de sonhos tomar cervejas e discutir a nossa programação e mais importante, como nos posicionarmos fora do alcance do longo braço da lei, representado então pelo Dentel. Ora bolas, este nome é mais condizente com serviços odontológicos mesmo assim, discutíamos boatos sobre transmissores apreendidos, de onde transmissões eram feitas, como os estúdios nômades se movimentavam, etc.

Os dias foram passando e nada do transmissor ficar pronto. O final infeliz foi o petit comité indo em passeata até o apê do Habib confiscar os componentes, que foram juntar poeira em outra localidade da metrópole, e nunca mais se falou em rádio pirata.

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