quinta-feira, abril 02, 2009

1985 - Parte II

O Brasil respirava mais liberdade e democracia em 1985 após a grande movimentação pró-diretas já no ano anterior. Um Sarney ainda desacreditado, já que viveria seus dias de glória nos meses seguintes ao Plano Cruzado em fevereiro de 1986, governava um país contaminado pela inflação e pela indexação. O papel dinheiro não tinha valor, desvalorizava-se 15, 20, 25% de um mês para o outro. Por isso, eu não recebia mesadas, mas semanadas. Todos os domingos, telefonava de São Paulo para Ribeirão Preto, contava aos meus pais as novidades e pedia uma quantia próxima do que eu deveria gastar na semana seguinte. Na segunda-feira, meu pai depositava no Bradesco este valor, eu sacava no cartão magnético e administrava os gastos até o próximo domingo.

Na ECA, diante de uma qualidade de ensino questionável, usufruíamos os novos ventos de liberdade ainda em plena ressaca da ditadura. Não havia mais governo militar, generais ou repressão, Erasmo Dias e Newton Cruz já não assustavam os universitários. A esquerda, três anos antes da queda do Muro de Berlim, ainda seduzia estudantes e ingênuos de plantão, e teria que amargar a derrota de Fernando Henrique Cardoso e Suplicy para Jânio Quadros nas eleições para prefeito de São Paulo no final do ano – quem não se lembra da virada janista e do episódio das nádegas indevidas? Pois bem, diante deste cenário morno, nosso maior compromisso era com a diversão.

Criamos o “Amural”, um semanário colado no mural do primeiro andar do prédio do Curso Básico da ECA-USP, no saguão em frente às escadas. Um tal de Pietro Holfmeister, personagem fictício, era o mentor, editorialista e eminência parda da publicação, que funcionava livremente. Bastava a quem quisesse escrever qualquer coisa e pregar na parede, provavelmente às segundas-feiras, em nome do Pietro, que estava resolvido. Nos reuníamos uns quatro ou cinco desocupados, lá pelas 10 horas, enquanto enforcávamos alguma aula que estava sendo ministrada no auditório no fundo do corredor, e dávamos risada com as besteiras e inutilidades que estampávamos no mural. O destino não permitiu que o Amural crescesse e ultrapassasse as fronteiras da USP, galgando os degraus da fama e oprimindo o rival carioca “Planeta Diário”. Perdemos a chance de expandir e sermos contratados pela Rede Globo – ao invés do “Casseta & Planeta Urgente”, teríamos hoje o “Amural Urgente” nas noites de terça-feira na telinha global ...

Primeiramente, fomos atacados em artigo colado no mural pelo segundoanista e invejoso Ricardo Lima, acho que do Curso de Cinema, que acusou os calouros “amuralistas” de pretensiosos, amorais, desprovidos de graça e absolutamente infantis em suas matérias e em seu humor. É claro que aceitamos as críticas de modo natural, afinal incentivávamos o pluralismo de idéias e uma opinião divergente estimulava a reflexão e o nosso desejo de aprimoramento. Queimamos imediatamente o artigo do Ricardo e inundamos o mural do Amural com respostas sutis e indiretas. O mais brando dos textos começava da seguinte maneira: “Ricardo, seu filho do cão sarnento, neto do chacal pelado, bisneto do abutre depenado, você é um grandíssimo filho da ...” e por aí seguia. O Amural mostrou força e coesão, e que estava preparado para crescer e mexer com os grandes interesses vigentes na época.

O episódio do cartaz

As aulas e disciplinas que dominavam a grade de ensino no primeiro ano da ECA para todos os estudantes, dirigidas ao conhecimento básico da comunicação, não iam bem. Pouca adesão, conteúdo modorrento, reclamação de alunos, professores burocráticos e empertigados, enfim, um clima de certo desânimo e desleixo vigorava no aprendizado, mas havia euforia no quesito diversão. Assim, decidi arrancar risadas e impressionar meus colegas amuralistas com o conteúdo da próxima edição do semanário. Comprei uma Playboy e recortei a foto da coelhinha mais apetitosa, em posição de quatro, escancaradamente insinuante, colei num cartaz e datilografei na máquina de escrever - computadores eram coisa de laboratório – a seguinte legenda: “Esta é a professora Fulana de Tal, de Filosofia da Comunicação, há quatro décadas atrás, quando ainda tinha alguma coisa a oferecer aos alunos”. Ao lado, em outros textos e fotos não assinados, fiz referências altamente abonadoras aos professores Soneca e Himencloaca.

Claro que boa parte dos alunos riu e os demais amuralistas reconheceram que eu havia “mandado bem” quando o cartaz foi afixado no Amural. E claro que os professores citados não gostaram. Da noite para o dia o cartaz sumiu, os professores citados iniciaram uma greve docente, se recusando a dar aulas a nossa turma, e foi aberto um processo que poderia resultar em sindicância e expulsão dos responsáveis pelos “insultos e graves ofensas”. Pensei com os meus botões que eu tinha ido longe demais com esta história de liberdade de expressão ... Na verdade, o cartaz foi a gota d’água que detonou todo o processo. Alunos e os três professores citados na brincadeira já andavam se estranhando. Se estávamos na melhor faculdade de comunicação do país, queríamos aulas e professores melhores. E estes queriam alunos menos insubordinados e que não atrapalhassem suas carreiras acadêmicas.

No processo de investigação do ocorrido, mantive-me oculto por razões óbvias. O Roger e o Kafa, representantes de classe dos alunos, salvaram a minha pátria e sou grato a eles até hoje, pois seguraram o rojão nas negociações de paz, nas quais foram acusados de co-responsáveis pelo acintoso cartaz. Ficamos sem aula com os referidos docentes (não que tivéssemos notado isso) por algumas semanas, mas depois os ânimos foram apaziguados e tudo, ou quase tudo, voltou ao normal. Se eu, hoje, aos 42 anos, encontrasse a renomada Professora Fulana de Tal, com seus prováveis sessenta e poucos anos, a maioria dedicados às teorias da comunicação, pediria desculpas a ela. Acho que exagerei um pouquinho. Mas 24 anos atrás eu era um garoto numa escola de comunicação descobrindo o mundo, apenas querendo ser engraçado para as menininhas e não merecia ser expulso. Ela e os outros dois poderiam ter levado mais na esportiva e se dedicado a melhorar suas capacidades de lecionar e atrair os alunos com aulas mais instigantes e reveladoras para jovens estudantes.

O fato é que, após o episódio, o Amural foi devidamente sepultado. O cartaz nunca mais foi visto e desconfio que até hoje encontra-se em alguma gaveta perdida da sala de professores da ECA. Encerrava-se ali uma promissora página do jornalismo denúncia. O novo humor brasileiro e a crítica escrachada acabaram ceifados nos corredores ecanos, e seus idealizadores partiram para novas empreitadas. Mas agora que sou réu confesso, espero que o suposto ou possível crime de calúnia, difamação e vilipêndio que cometi já esteja prescrito.

Vídeos

Uma das aulas que atraía mais alunos e fomentava maior interesse era a da Professora Baccega, uma mulher mais despojada, que se sentava de pernas cruzadas em cima da mesa, fumava e dizia palavrões para discutir os níveis da fala. Se não me falha a memória, foi para esta disciplina que fomos divididos em grupos com o objetivo de produzir um vídeo como trabalho semestral. Assim como o dono da bola leva vantagem quando reúne os amigos para jogar futebol, fui beneficiado pelo fato de ser um dos únicos na turma a possuir uma câmera de vídeo, uma antiga betamovie.

Assim, ganhei um dos papéis na trama “Kaiadiquatru”, produção cujo título parodiava um cult dos cinemas daqueles tempos, o “Koyaniskatsi”, ou algo parecido, filme que abordava com imagens fortes e trilha sonora minimalista a decadência da civilização moderna, algo como a vida urbana e industrial escravizando o ser humano e seu destino. Já o nosso vídeo mostrava uma república composta por estudantes heterogêneos, que se comunicavam de maneira diferenciada em função de suas origens. Eu era o “Carlão”, um agroboy do interior extremamente formal e que utilizada a norma culta para se expressar, e havia o divertido e coloquial Rubens, que dada a sua liberalidade de linguagem e de costumes morria de Aids na trama. Tudo é muito ruim no vídeo – a história, a edição, o som e especialmente a minha interpretação.

Em uma das cenas, o Alon, que fazia o papel de fazendeiro pai do Carlão, me dá um cheque e instruções para viver na cidade grande. Patético! A Alon, titular hoje de um dos blogs políticos mais respeitados do país, era mais velho do que os outros alunos da classe. Judeu e comunista, trabalhava na “Voz da Unidade”, semanário do Partidão no país. Gozador e uma verdadeira enciclopédia de conhecimento (tinha estudado medicina até o quinto ano da USP), Alon estava na ECA apenas para conseguir o diploma e se divertir com o bando de pirralhos ao redor, mas na prática ele já era jornalista, tanto que não chegou a concluir o curso, encontrou coisa mais interessante e produtiva para fazer.

Tê-lo como “pai” no vídeo foi engraçado e irônico, já que fazia o papel de um latifundiário conservador, representando exatamente aquilo que ele mais lutava contra. Ao longo das últimas duas décadas, Alon chegou a comandar a redação da Folha de S. Paulo e o UOL, substituiu o Valdomiro, aquele do esquema do Zé Dirceu, no cargo que o pivô do escândalo do jogo do bicho possuía no Palácio do Planalto, além de assessorar grandes políticos e participar de campanhas. Hoje, ele dá as cartas no Correio Braziliense, tem um programa de entrevistas na TV e gosta de atacar o Álvaro Uribe e o imperialismo colombiano na América do Sul em seu blog. A última vez em que nos encontramos foi em Ribeirão Preto, no Estádio Santa Cruz, em 1995, na final do campeonato paulista entre Palmeiras e Corinthians.

Mas voltando a nossa videocassetada, em outra cena, gravada pelo Cezinha em alguma calçada do Alto de Pinheiros, protagonizei uma briga de rua com o Antony Helms, que se formou em cinema e se transformou em escritor, inclusive com livros para adolescentes. Os efeitos e defeitos da cena são bisonhos! Vale ainda destacar a cena da festa, gravada no mocó (apê) que dividi durante todo o segundo semestre de 1985 com o João Brito, ou Johnny Bright, ou Zumbrito, companheiro também de viagem à Bolívia e a Machupichu em julho de 1986.

O apartamento ficava num conjunto habitacional do BNH na Avenida Diógenes Ribeiro de Lima. Ao todo, devia somar uns 70 metros quadrados de área, mas fomos capazes de colocar mais de 40 pessoas lá dentro e gravar a farra, ou quase toda ela. Imagino a felicidade dos vizinhos! E assim finalizamos a superprodução, um raro documento de criatividade e mau gosto de estudantes de primeiro ano de meados década de 80. Dizem que o Cezinha, ou o Clovis Veneno, ainda teriam até hoje uma cópia VHS da obra prima que recebeu nota 9 com louvor da professora, principalmente em razão da originalidade e empenho de seus realizadores.

O outro vídeo, “A modelo”, estrelado pela bela e séria Simone, gerou algumas discussões entre seus idealizadores, a maioria gente de personalidade. Acabou vencendo a versão quase autoral do Daniel Matvienko, grande amigo no sentido literal, com seus dois metros de altura. Músico e outsider, Daniel deixou sua marca de sucesso também com a música tema da produção, que contava a ascensão, glória e desgraça de uma top model: Era a modelo mais bem paga do país Vivia rodeada e se sentia muito só Nas horas vagas cheirava muito pó Ela era assim e gostava de mim Daniel tinha outras pérolas, como as historinhas do bandido dos três tiros, o blues “Meio dia no Texas” e o hit “Estive mal, estive em coma, estou legal”. O cara se mandou para Nova York e depois para Londres, onde tivemos uma divertida convivência em 1991, nos parques e nas noites da capital inglesa.

Certa feita, como ela gostava de iniciar suas histórias, foi surrado pra valer por uma gangue do sul de Londres e chegou de olho roxo e boca sangrando num apartamento onde havia uma pequena festa. Imediatamente indaguei detalhes do ocorrido, mas ele apenas deu uma risada marota, abriu a jaqueta de couro preta e desbotada e tirou de dentro uma garrafa de whisky cheia até a metade: “O que importa é que eu salvei isto”, comemorou. No final de 2008 recebi um e-mail do Daniel, ainda em Londres, com as fotos de sua mais recente viagem de bicicleta do Nepal ao Tibete. “1985” requer uma terceira parte, onde voltarei com mais algumas histórias de um ano atrevido e marcante em minha singela existência.

Guto

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