segunda-feira, abril 06, 2009

1985 – Epílogo

Um Brasil com aspirações de grandeza lutava em 1985 com o intuito de ganhar o status de primeiro mundo. Tínhamos liberdade política e de expressão, havia um calendário de eleições, mas a economia não ajudava em meados da década perdida. O indomável dragão da inflação estava prestes a incinerar uma série de planos econômicos mirabolantes, o primeiro deles o Cruzado I, que seria lançado em fevereiro de 1986 e nocauteado meses depois, congelado pelo chamado estelionato eleitoral do segundo semestre. Mas a economia é coisa meio chata para estudantes de comunicação, cujo conhecimento matemático não costuma ultrapassar as quatro operações básicas e, quando muito, uma regra de três simples.

Vivíamos meio indexados e isso bastava para tocar a vida de aluno de faculdade púbica, comendo no bandejão da USP, frequentando o clube e a piscina do Cepeusp, indo a cinemas, cineclubes, festas e shows para estudantes. Muitos de nós já trabalhavam, faziam estágio ou frilas, como o Nélio e o Idarni, que viraram bancários no Banespa e no Itaú, respectivamente. Ayrton Senna começava a despontar em sua Lotus preta e Madonna surgia como estrela internacional. O buraco da camada do ozônio, tema discutido hoje por crianças da pré-escola, havia sido descoberto por cientistas e divulgado para o mundo, e os destroços do Titanic foram localizados naquele ano.

No Brasil, enquanto a novela Roque Santeiro se transformava em sucesso absoluto de audiência e tema de conversas na faculdade, eu me mudava para um apartamento em Alto de Pinheiros, o mocó do João Brito. De manhã, ia de carona com ele para a USP, na sua CG 125 cilindradas, e já me impressionava o tráfego intenso da Marginal Pinheiros quando cruzávamos a Ponte da Praça Panamericana. A primeira epopéia do Perseu Mas isso não durou muito. No final de outubro, ganhei do meu pai, de aniversário de 19 anos, um Fusca zero bala, motor 1.600 cilindradas, batizado de “Perseu” e maldosamente apelidado de “Hospital Universitário” em função das duas letras que compunham sua placa: HU. Como não poderia deixar de ser, o fusquinha teve vida atribulada.

Já na estréia, fui a Ribeirão Preto buscá-lo na concessionária e retornei imediatamente a São Paulo para um importante compromisso. Era feriado de Finados e a turma da ECA, em peso, havia alugado uma casa em Caraguatatuba para desfrutar de um ensolarado final de semana prolongado. Passei no mocó já de noite para pegar o Idarni (que por aqueles tempos também fazia do local seu endereço), o João Brito e mais um carona que desceria junto até a praia. Como de costume, o Idarni atrasou vindo do trabalho no Itaú e chegou resmungando com razão, ao melhor estilo de um descendente de espanhol e paulistano zona norte, tipo “mora mano”. Quase havia sido demitido naquela noite tal a quantidade de ligações telefônicas que recebera durante o expediente, na compensação de cheques, dos colegas e amigos que queriam informações a respeito da casa que ele negociara e alugara em Caraguatatuba. Nunca me esqueço o dia em que o conheci e ele contava algo a respeito de alguém que saltara da Torre Eiffel e se esborrachara no chão fazendo um buraco de um metro de profundidade no solo. Indaguei então: “Um metro? Tudo isso?”, ao que ele respondeu: “Porra, meu, eu não estava lá pra medir mas ...”

Acalmados os ânimos, relaxamos e partimos rumo ao litoral norte, de Perseu novo, eu, exultante, ao volante, e pegamos a Marginal Tietê. Na altura da Penha, já de madrugada, havia um desvio e acabamos nos perdendo no confuso trânsito da zona leste. Ao passar por um ponto de táxi, vimos um carro parado e um motorista dentro, esperando passageiro enquanto tirava uma tranqüila soneca. Engatei ré para emparelhar os carros e perguntar qual a melhor maneira de retornar à Marginal Tietê. Por distração, inexperiência ou barbeiragem, ou uma junção dos três, acabei raspando o meu paralama traseiro na frente do táxi. Saí em pânico do Perseu, achando que o estrago tinha sido grande, que o feriado estava perdido e que meu carro novo já era ...

Felizmente, nada disso ocorrera, havia sido só um amassado no fusca e praticamente um arranhão no táxi, mas obviamente o motorista não gostou de ser acordado daquela maneira esdrúxula por um moleque barbeiro. Para piorar as coisas, não achei nada melhor do que desmaiar enquanto negociávamos com o sujeito. Assustei meus companheiros com esta corajosa e emblemática atitude, e o motorista, ainda mais espantado com toda aquela situação em seu ponto de táxi, aceitou qualquer “30 dinheiros” da época e nos deixou partir. Prudentemente, o Idarni, experiente conhecedor de São Paulo e de mecânica de automóveis, assumiu a direção do Perseu e chegamos à Caraguatatuba sem maiores problemas. Como não poderia deixar de ser, ninguém viu o sol naqueles cinzentos dias em “Caraguatachuva”.

Éramos em mais ou menos 25 pessoas, homens e mulheres numa mesma casa, quartos com vários beliches, música, areia e aquela xaropada de brincadeiras, piadas, pouca comida, bebida barata, jogos e pernilongos. Enterramos o João Brito na areia, deixando apenas a cabeça do lado de fora, tiramos fotos e tomamos muita, mas muita chuva. Poderia ter sido melhor se o tempo estivesse aberto, e eu estava com a moral baixa em função do amassado do fusca.

O rei das monografias

Com a chegada do fim do primeiro ano da ECA, estávamos preocupados com a monografia que tínhamos que escrever e entregar, valendo nota para as principais matérias do básico. Esta época me impressionava a questão da ditadura e da resistência armada ao regime. Conhecia bem o nome das organizações guerrilheiras, como VPR e ALN; seus líderes, como Lamarca e Marighela; suas mortes na Bahia e na Alameda Casa Branca; seus feitos, como seqüestros de embaixadores e fuga ao cerco do Vale do Ribeira; e seus algozes, como o Fleury e o capitão Albernaz. Escrevi um texto de 15 ou 20 páginas na máquina elétrica de datilografar “Práxis” com foco histórico, e nem me lembro o que tudo isso tinha haver com comunicação. As professoras até que gostaram da minha ladainha carregada em tintas contra a ditadura e que vestia a esquerda armada com uma roupagem heróica. Tirei um 8,5 qualquer.

Mas o grande herói das monografias foi o Roger. Empenhado a ter uma renda que não fosse a parca mesada oferecida pelo pai, tentara inicialmente vender enciclopédias. Ficou dois dias engravatado batendo de porta em porta e pediu demissão. A Alon já o cortejara para levá-lo ao semanário “Voz da Unidade”, mas antes de aceitar este trabalho de comunista que o levaria a passar nove meses na Alemanha Oriental em 1986 e aprender a comer criancinhas, no bom sentido, Roger agarrou uma outra oportunidade, bem mais capitalista. De texto fluente e sem medo de ser feliz em suas iniciativas, Roger se ofereceu aos colegas para escrever suas monografias de final de ano. Inicialmente, negociou duas ou três em troca de “100 dinheiros” cada uma delas. A notícia se espalhou e logo ele comercializou mais cinco monografias, abocanhando cerca de “800 dinheiros”, algo em torno de uns R$ 2,5 mil hoje, ou seja, dinheiro gordo para um estudante de 20 anos que morava na casa dos pais e começava a traficar conteúdo e direitos autorais.

Feita a negociação, faltava apenas um detalhe: escrever os oito trabalhos, e fazer todo mundo passar de ano, inclusive ele. Saltava aos olhos a despreocupação do Roger um mês antes da data de entrega das monografias. Se já estávamos tensos em produzir uma só, a nossa, imagine escrever oito de uma vez. Ele explicava: “Vou passar uma semana lendo os textos do Adorno e da Escola de Frankfurt, e outros que os professores distribuíram ao longo do semestre. Depois, na semana seguinte, escrevo uma monografia por dia, alterno parágrafos, enxerto expressões como ‘por outro lado’ e ‘de acordo com o que se pensava então’, e finalizo os trabalhos com conclusões do tipo ‘enquanto o imperialismo e a indústria cultural manipularem as massas, a classe dominante manterá seus privilégios às custas dos menos favorecidos’, etc, etc”. Dito e feito, dito e escrito.

No prazo combinado, o Roger entregou todas as monografias a seus financiadores, os quais não divulgo os nomes neste post para não macular suas carreiras e biografias. E o pior: a nota mais baixa obtida por ele foi oito, superior ao sete recebido pelo Nélio, hoje um escritor de novelas capaz de escrever 30 laudas de texto ficcional num só dia. Ou o Roger escreveu e enganou muito bem, ou as professoras nem leram as monografias atentamente para perceber as semelhanças. Fico com a primeira opção, já que o Roger mostrou em sua carreira ser capaz de outras proezas como esta. E assim foi terminando o ano de 1985, com outras inúmeras histórias, viagens e fatos absolutamente impublicáveis, a não ser que eu troque as identidades dos envolvidos. Mas deixa pra lá, estes episódios a gente apenas comenta à boca pequena ou relembra com um gostinho de saudade no coração.

Guto

4 comentários:

  1. Não tenho o mínimo pudor em confessar: eu fui um dos alunos relapsos que encomendou uma monografia pro Roger. Até hoje não sei do que se trata a matéria de "Comunicação Comparada" e nem estou interessado em saber. (rs)

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  2. E eu, que fiz minha própria monografia e não tenho a menor idéia do tema, muito menos do que escrevi.... rs...
    Andréa

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  3. Aliás, até gostaria de saber sim: alguém sabe do que se trata o estudo de Comunicação Comparada?

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  4. Gustavoooo! quanto tempo, que legal o blog!

    Vale a pena fazer um post só desta viagem para Caraguatachuva, das 100 gramas de erva, do café da manhã (o Johnny me acordava para organizar) e do quarto destinado aos não-fumantes: Melchiades, Antonio, Bea e Eu - Será que tinha mais alguém? Eu devo ter uma ou duas fotos desta viagem, foi ótima!

    Vou aproveitar e deixar meu blog: www.jornalistacronica.blogspot.com

    beijos

    Estela

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