sexta-feira, junho 26, 2009

Memórias de Never


Texto: Never
Ilustrações e suporte psicológico: João Detrito

Tarefa simples, nenhuma ciência aeroespacial: sobe a Sílvia, pega o bumba na Paulista, despenca a Rebouças, chegou. Não fosse o par de joelhos sorrindo sob a abreviada minissaia jeans, não tinha desconcentrado. A vida é curta, mas a saia daquela garota... Perdi o Circular 1 ou 2 com paradas na história, biologia, HC, pequeno desvio através da FAU pra só então apontar na esquina do Banespa e chegar ao meu destino. Fui a pé mesmo, Forrest Gump de antanho, atravessando boa parte da Bolívia e a praça do Relógio. O retângulo quadriculado de cimento correspondia a estudo anterior do sítio arqueológico. Era o CCA, mas eu ainda não havia me dado conta disso.


Pedi informação a uma modelo cujo braço na esquina e seio na calçada apontavam pra uma escada de ladrilhos verdes atrás das portas de vidro. Auditório no primeiro andar. Segui alegremente ao lado dos cordiais 120 novos colegas. Um deles, inclusive, percebendo minha dificuldade em passar pela porta da sala de aula apinhada de gente, fez a gentileza de colocar a sola do seu Vulcabrás bem no meio das minhas costas, me empurrando pra dentro da classe. Rolei os degraus entre as filas de cadeiras bem a tempo de ver garrafas de Domec circulando de mãos em mãos sob os assentos. Ainda não era 8 da manhã. Desmaiei. Depois de alguns segundos no solo, fui prontamente socorrido por dois intelectuais muito altos, que me ergueram pelo pescoço até que meus pés não mais tocassem o chão, numa tentativa desesperada de me reanimar. Quando recobrei a consciência, eles me perguntaram se eu estava bem. Respondi que estive mal, estive em coma, estou legal. Aproveitei para pedir desculpas por qualquer eventualidade passada, presente ou futura e arrumei um lugar pra sentar.

O professor Vigília Michael Pinto apareceu de baccega de fora. Tomei um susto. Achei que seria uma aula imacolatta. Falei: Xi, fadul! Uma japonesinha muito tímida que acabara de ganhar um cigarro multicolorido num sorteio me mandou sossegar, era só moya da minha cabeça.

Nossa primeira incumbência era produzir um vídeo, criar um super-herói. Alguém que fosse mais rápido, mais forte, mais valente. Alguém, assim, de Belvedere. Entre tantos tipos atléticos disponíveis, arrumamos um calouro de peito largo, pernas finas, fumante passivo (ninguém é perfeito, e não estamos aqui pra tecer julgamentos sobre as opções de quem quer que seja) inveterado. O sujeito ganhou o papel no teste executando uma cena perfeita, onde, depois de quebrar uma mesa de ping pong por ter sido derrotado, ele protagonizava um beijo (meramente cenográfico) com um tipo barbado, de peruca loira. A atuação foi impressionante. Com que carinho e realismo nosso candidato a ator alisava os falsos cabelos loiros, chamando o ogro de “Regininha”. Excentricidades artísticas à parte, o papel era dele.

Subimos a Serra da Cantareira com tudo em cima pra captação de imagens. Parte do material estava numa caixa de papelão. O restante, no tubinho de kinder-ovo dentro de um saquinho de tênis Puma. Como era mesmo o nome do colega que portava o kinder-ovo? Não lembro, só lembro que era chamado de Nôno por uns, Mano-Velho por outros. Pois bem, maquiamos o personagem, ajeitamos as plantinhas cenográficas providenciadas pela produção divina, escolhemos o melhor ângulo para o plano.

- Pois bem, capitão, onde está a fita?
- Fita?
- É... a fita pra gravar.
- Não posso pensar em tudo. Não trouxe a fita.

O fato era esse: nosso capitão lembrou de trazer a peruca loira, a bota de escalada, o gorro de alpinista, cordas, grampos, cachaça, mas havia esquecido a fita.

Passado esse momento de decepção, esperamos nosso produtor de cabelo descolorido com água oxigenada despachar diplomaticamente os PMs que já nos cercavam. O sargento da PM só se deu por convencido quando nosso produtor falou: “- Chegou um rapaz com um papel pra mim. Me dê um motivo pra ir embora”. Liberados, iniciamos nossa volta pra casa. Entramos no nosso automóvel modelo Cafavan, finamente decorado com musgo em seu interior, ouvindo o sibilar relaxante dos guizos das cascavéis no porta-malas, olhando o asfalto que passava sob o assoalho desmanchado do veículo.

Já de volta ao Centro Acadêmico, fomos tomados por aquele sentimento de vazio interior. Apesar da disponibilidade de uns em preencher o vazio interior de outros, começamos a pensar em algo pra fazer. Foi quando alguém lembrou: - Porque não aproveitamos pra consertar a mesa de ping-pong quebrada com um pouco da cola de sapateiro usada na Artes Cênicas?

Partimos pra essa nova empreitada.

O afã de concluir o novo projeto era tão grande que dois dos nossos se pegaram pelos cabelos, tentando ferir o chão com o nariz do oponente.

- Vou te desossar, punk veado! Vou te trancar no meu arquivo vermelho e vou jogar a chave no lixo!
- Então vem, judeu-nazista-fascista. Vou te matar de tédio com meu discurso pró-sandino!

A pendenga durou até que a Marta pegou heavy e falou: - 25% e um banho pra cada um, e não se fala mais nisso. Felizmente o politicamente-correto ainda não era uma demanda na época, ninguém foi acusado pela adjetivação preconceituosa empregada no debate-boca, e não foi instaurado processo na polícia federal por atitude discriminatória. O importante é que o episódio inspirou uma nova dança, e imediatamente nos pusemos a organizar uma festa no sítio de Sujaime.

O ex-presidente deposto do CA e gerente-geral da estrapolândia Taraldo foi encarregado das compras, e nos trouxe 8 Suflair e uma garrafa de vodka Baikal para o fim de semana. Ingerimos alguns doces pra encarar a viagem. Nevava muito e tínhamos que empurrar o jeep que só pegava no tranco. Para otimizar o esforço, cinco empurravam na parte da frente, cinco na parte de trás. O jeep não se movia. As gargalhadas das pessoas que assistiam tudo de uma padaria só cessaram quando os estudantes de engenharia infiltrados na comunicação, Ivo Kanivo e Pelôncio, se não me engano, disseram que a iniciativa estava correta em seu fundamento, mas o esforço deveria ser concentrado em uma só direção. Como são arrogantes esse engenheiros. Se preocupam com resultados, sem dar a menor importância ao entretenimento. E ainda acham que podem fazer cinema.

A pista de dança ia à todo vapor no sítio de Sujaime. Celginho, o homem-nó, comandava a turba com gritos de “- Ui, rrrrapazzz!” ou “Sei lá, Sarney, mil coisas!” O ator Pluto só aguardava o final do Jornal Nacional às 4 da manhã para voltar a beijar a Regininha. Dançávamos apenas e exclusivamente Subculture do New Order quando um secretário de Estado, que havia começado sua carreira encenando “Tistu, o Menino do Dedo Verde”, mas a essa altura já estrelava “Nossa Caixa 2, o Menino da Mão Grande”, parou de beijar a cadela Negrita na boca e veio diretamente do meio do pasto para vomitar no centro da sala, onde dançávamos. Esse gesto, obviamente, facilitou os movimentos na pista de dança, deslizávamos melhor, por isso resolvemos voltar a música Sub Culture e dançar novamente.

No final da dança, tivemos que levar o secretário de Estado ao banheiro pra que ele pudesse vomitar novamente. Nessa ocasião, o banheiro masculino era separado do banheiro feminino apenas por uma tapadeira de madeira. Foi então que um colega, um ursinho com bandana no pescoço e um enorme topete enrolado num maço de bom-bril, que atendia pela alcunha de Rockabílio Manoel, notou a obsolescência do sistema de espelhos instalado pelo companheiro Cafuringa Lobiscate, a fim de observar mais de perto o vaso sanitário utilizado pelas mulheres. Imediatamente, Rockabílio Manoel sacou seu canivete e começou a escavar um buraquinho na tapadeira, que depois virou um buracão. No terceiro dia, quando já havíamos desistido de fazer com que Rockabílio Manoel saísse daquele banheiro, a tapadeira cedeu com o peso dos 15 ou 20 marmanjos que se espremiam pra olhar através do buraco que dava pro banheiro feminino, e todos cariam no meio da mulherada. Não recordo de momento mais romântico. As garotas com certeza se sentiram definitivamente seduzidas.

De volta à Universidade, convocamos uma reunião extraordinária na Estrela, também conhecida por CA de Inverno. Nos pusemos a queimar.... as pestanas para ver qual seria a nova aventura. Queimamos, queimamos e queimamos, e quanto mais a gente queimava, mais dispersos parecíamos ficar. Não lembro muito bem desse dia. Lembro que, em dado momento, o carioca Jean, já com os dedos calejados de tanto debulhar espigas de milho, veio com uma proposta: porque não subimos a cópula do congresso?

Pensamos: será?....só imaginação?... será?...que nada vai acontecer?....será? .... que é tudo isso em vão?....será? ...que vamos conseguir vencer?

To be or not to be continued...


(crédito fotos: Paramão Pictures, Fernando Stankus, Vladmir Putinho)

Um comentário:

  1. Arrrraaaaasssssououuuu, Nelinho!!!! Conheço bem algumas "personas" e outros "factos", mas não me lembro da saia ser tão curta assim... ahahahahaa..
    To be continued, obviously.
    Andréa

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