quinta-feira, abril 02, 2009

1985 - Parte I

Deixar a casa dos pais, mudar de cidade, começar um curso universitário e usufruir em toda plenitude a idade de 18 anos com a certeza quase absoluta da imortalidade. Toda uma vida pela frente, muita diversão, aventura e emoção de sobra à espera, um mundo a ser descoberto e explorado.

Foi com este espírito construtivo e convicto, recheado de boas expectativas, que desembarquei em São Paulo, vindo de Ribeirão Preto, em fevereiro de 1985 para estudar Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Fui morar a uma quadra da Avenida Paulista, ao lado do Hotel Maksoud, num pequeno mas confortável quarto de empregada reformado no apartamento de meus padrinhos. Logo no primeiro mês, presenciei da janela do ônibus Butantã-USP, sempre que o coletivo passava em frente ao Hospital das Clínicas na Avenida Rebouças em direção a USP, a agonia de Tancredo Neves. Uma multidão de jornalistas, entre eles Carlos Nascimento, e populares aguardava diariamente no local o próximo boletim médico enquanto o nosso presidente definhava, era seguidamente submetido a cirurgias inúteis e literalmente esfriado até bater as botas em abril.

Deste período, ficou marcado uma capa do jornal humorístico “Planeta Diário” com aquele tradicional passatempo “Ligue os pontos e veja que figura vai dar”. Era o abdômen presidencial com os pontos cirúrgicos. Na faculdade, começava o entrosamento com os futuros comunicólogos: De Jornalismo, Roger, Melk, Fabio Maranhão, Teresa, Ana Luisa, Ângelo, João Brito, Sibele, Denise Itatiba, Alon, Carlinha, Rodrigo Chileno, Fernandinho Fulaneti, Luiz Guilherme, Elsie e Mônica Sanches; da Editoração, Nélio, Martha, Yury, Bea e Tili; da Rádio e TV, Idarni, Lusão, Cezinha, Kafa, Déia, Juliana, Daniel, Dalarosa e Silvia; de Cinema, Antony Helms, Marcio Langeani, Leiva, Eduardo Caron, Ivo, Tales e Ewerton; de Relações Públicas, Estela, Andréia, Carla, Simone e Fernanda; de Publicidade, Gibotti, Alessandrinha, Rubens e Fabiana; de Biblioteconomia, Marnie; de Artes Cênicas, Lucia Romano. Dos outros anos, Bufa, Jaime, Zé Roberto, Manga, Alcides, os dois Serginhos e o Aldo, entre tantos outros calouros e veteranos.

De início, rolou uma integração na torcida do trio Estevam, Ângelo e Elisa na acirrada disputa estudantil do programa de TV “Quem sabe, sabe”, comandado por Randal Juliano, acusado posteriormente de ter colaborado com a ditadura. Fomos bem, mas não levamos. Rendeu ao menos uma saída para os bares do Paraíso. E, num encontro etílico gastronômico no Bixiga, exagerei na falta de educação à mesa e ganhei o selvagem apelido de Conan, o bárbaro.

A epidemia da Aids começava a adquirir proporções alarmantes e minha geração foi a primeira a sofrer suas conseqüências, forçando os mais precavidos a levar em consideração um comportamento sexual mais responsável. Embora ainda considerada doença essencialmente gay, assustava ver as vítimas definharem. A turma de Publicidade até colou no outdoor em frente à ECA e ao gramado onde jogávamos bola um cartaz, escrito em letras garrafais, com o aviso “CUIDAIDS”.

Mas as festas eram animadas, tanto a primeira, na república localizada numa travessa da Marginal Tietê logo atrás da Tok Stok, quanto a segunda, em Pinheiros, entre a Teodoro Sampaio e a Cardeal Arcoverde, com muito destilado barato, fumaça e, na caixa, Smiths, Frank goes to Holywood, The Cure, Tears for Fears, U2, Duran Duran, Ulraje a Rigor, Blitz, Paralamas, Titãs, Ira, RPM, Barão Vermelho, Jovem Guarda, Dire Straits, Stones, The Doors, The Clash, Police, B52, New Order, etc. Na estrada Tempos de boas viagens, como para o Rio de Janeiro, em companhia dos hoje bem sucedidos jornalistas Roger Ferreira, da Fator F, e Melchíades Filho, da Folha. Fomos ao Noites Cariocas, no Morro da Urca, assistir ao RPM, e ao Parque Laje, ver o Ultraje.

Em julho, batemos eu, Nélio, Roger, Déia e Alessandrinha de táxi, partindo do terminal do Tietê, para Belo Horizonte, já que não havia mais passagens de ônibus.


Lá, conhecemos a escultural Fabiana, e fomos todos para Ouro Preto. Na cidade histórica, protagonizei um estúpido episódio. Depois de tomar umas e outras nos bares da cidade, comecei a desafiar quem estava ao meu lado para um braço de ferro. Depois de duas ou três vitórias, virei para o bar inteiro e bradei: “Mais algum otário gostaria de perder?” O clima esquentou, venci mais uma e fui salvo pelo Nélio, que me tirou daquela fria antes que eu levasse porrada ou estocadas.
O Nélio, hoje um promissor escritor de novelas, não teve muita sorte naquela viagem. Acostumei a vê-lo, nos últimos 25 anos, sempre triunfando com seu vozeirão e sua incrível capacidade de falar besteiras, fazer trocadilhos e deixar seu interlocutor amuado e diminuído, sem reação. Naquela Ouro Preto de 1985 ele foi literalmente nocauteado pelas palavras, frases e gestos de um estudante de Farmácia chamado William, restando a meu amigo se esconder debaixo da mesa. Anos depois soubemos que o William havia se matado – a vida tinha perdido graça.

Por fim, fizemos uma incursão ao Pico do Itacolomi passando por trilhas, cachoeiras, uma caverrna e muita canseira. O que ficou desta conquista das montanhas de Minas, além da paisagem exuberante, foi o conto da bolacha. Esfomeados no alto da serra e imbuídos do mais sincero espírito altruísta, eu e o Nélio ludibriamos o crédulo Roger na contagem dos biscoitos, deixando para ele não muito mais do que míseros farelos. O Roger, como sempre, levou tudo na esportiva e sem rancor, caso contrário não teria me convidado para ser seu padrinho de casamento.

No próximo capítulo de “1985” contarei os episódios do “Amural”, o mais engraçado jornal insignificante de todos os tempos; do cartaz que gerou uma greve de professores; dos vídeos “Kaiadiquatru” e “A modelo”; e do incrível vendedor de monografias.


Guto

Um comentário:

  1. ai ai ai!!!! quero ser o primeiro a comentar esse blog. To quase chorando aqui gente!!!! isso bem q podia virar um livro. Muito melhor do que Babado Forte da Erika Pakalolo (Palomino). hehehehee

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