quarta-feira, junho 10, 2009

É mentira, Terta?

Como outros, este causo tambem começa de manhã...

Fomos eu, Cezinha e Ana Luísa ao laboratório de anatomia defronte ao prédio principal da ECA, do outro lado da Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, com roteiro, planilha de produção e câmera em punho para gravarmos uma das cenas finais de "A modelo".

Segundo a letra da música tema; "Ela morreu num acidente de moto/E como foi horrível sua última foto/Um braço na rua, um seio na calçada/Ela ficou toda despedaçada...". E parece agora um tanto surreal que os três jovens naquele momento se encontraram batendo a porta do dito laboratório.

Um moreno magrelo atendeu. Era o assistente do Dr Watanabe - o bam-bam-bam do Departamento de Anatomia. A porta foi aberta 45 graus. O suficiente para entrarmos em fila indiana. Parece que o assistente não estava lá muito disposto a deixar-nos entrar, ou talvez receoso de que alguns fantasmas escapassem. E na sua sala, Dr Watanabe olhou sobre o ombro de soslaio, tomou conhecimento de nossa presença e voltou a se debruçar sobre a escrivaninha.

O silêncio era condizente com a atmosfera austera do local. O cheiro insuportável de formol, subindo pelas narinas, rasgando direto até o topo do cérebro. Pensei no efeito de anos exposto a este ambiente.

Fomos conduzidos, ao longo de um corredor com pratelheiras repletas de jarras, com toda sorte de tecido humano em conserva, até a sala de aula vazia, com suas mesas frias de metal.

Explicamos ao assistente que necessitávamos de um braço e um seio. Ele nos levou ao laboratório anexo. A cena era dantesca e se não fosse pelo fato de ter ouvido tais narrativas de alunos de medicina, acho que meu estômago teria virado.

Será que alguem sentia falta daquelas pessoas?

Na pia, próxima a janela, haviam duas cabeças. Na bancada ao longo da parede oposta, braços e pernas empilhadas. No meio do laboratório, dois tanques imensos, de fato pequenas piscinas com paredes de tijolo, do chão até minha cintura, com tampos de madeira em cada metade, abrindo da extremidade ao centro. Uma metade aberta e suspensa por um cabo de vassoura escorado na beirada. A outra por abrir. Dentro, no líquido turvo, vários pedaços de gente, de todo tamanho, algumas secções boiando acima da superfície.

Ele pegou então um arpão e começou a pescar, logo um tórax vinha a tona, sem pernas e sem cabeça mas de mulher, sem dúvida. Lá estavam os seios. Achei interessante, ainda que macabro, como ele conhecia o estoque. Eu disse que melhor seria um seio só, separado do resto.

O assistente botou o arpão de volta na bancada, pegou um dos braços que ali se encontravam e foi em busca do seio. Voltou com um e colocou-o em uma das mesas, ao lado do braço. Logo botamos ele para atuar. Decorou sua fala - "Isto, foi tudo que restou...". E disse-a, nos dois ou três takes, com exatamente a mesma indiferença de quem sabe bem que a vida não vale nada.

Deixamos assim o Dr Watanabe e seu assistente para a ciência, para nunca mais voltarmos. E aposto que em vida nunca sentiram, sentem ou sentirão nossas faltas.

2 comentários:

  1. Muuuito interessaaante, meu caro Mordicius. Onde andarão aquele seio e aquele braço? Terão retornado ao mundo dos vivos na forma de implantes celulares? Gostarrrria muuuuito de ver essas cenas edificantes novamente. Com quem estão as evidências, digo, as cópias?

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  2. johnybriiiiiiiiiiiight...
    O seio e o braço ficaram no laboratório então imagino boas chances de terem virado implantes celulares.
    O sarro máximo foi a última cena no meu apê, recortamos um seio de uma playboy qualquer da vida e afixamos o recorte com durex do lado de fora de um pote de maionese cheio de água!
    Acho que o bibliotecário mórbido, digo mor da época (Cesar Henrique Tavela Goulart) tem uma cópia em betamax ou vhs. Talvez minha mãe tenha uma no sotão. Vou procurar...

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