Jah une e Jah separa.
Peter Tosh
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Olá amiguinhos! As armas e os barões assinalados en passant pelo progenitor Gustavo
nesta postagem fazem parte deste episódio que marcou para mim aquele ano. O ano que, segundo o Cezinha, não acabou...
IO sol nasceu no dia 22 de Abril de 1985. A manhã de segunda-feira fez-se clara porem nebulosa com um fino véu branco e translúcido cobrindo a cidade, deixando o céu de um azul mais claro. Naquele momento eu sofria no mínimo de grave intoxicação alcoólica. Acordei com a cara enfiada no colchão:
1. Com uma das três piores ressacas de minha vida
2. Mais morto do que vivo
3. Desejando que o mundo acabasse o quanto antes
O complexo de culpa foi mais forte. Eu já havia cabulado a primeira semana inteira do meu ano de calouro, a baixa frequência resultando inclusive numa dura que recebi do então querúbico Lusão de Marília, que como eu, tambem estava matriculado no curso de Rádio e Televisão, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, conhecido então pela sigla RTV ECA-USP.
Assim sendo, e repetidamente posicionando um pé a frente do outro, evacuei o apartamento no predinho do alto da rua Wizard, na Vila Madalena onde eu morava. Em passos incertos consegui quebrar a barreira da dor e quando dei por mim já havia cruzado a fronteira com Pinheiros, e aguardava o transporte público, no ponto de ônibus da rua Cardeal Arcoverde.
E por que raios a banca da esquina com a Fradique Coutinho estava fechada? Onde eu me distraia, as vezes lendo as chamadas do Planeta Diário - "Maluf se entrega a polícia!". Esta pergunta e muitas outras seriam em breve respondidas.
O quietude do ar e da rua, o Butantã-USP vazio, nada fazia sentido. Parecia um feriado. E era. Quando desci próximo da Aliança Francesa e do Rei das Batidas (segundo me consta conhecido hoje em dia como Batidão), deparei-me com o ponto de carona às moscas. O absurdo me chacoalhou forte. Perguntei atônito ao primeiro passante o por que deste estado, como se eu tivesse caído de paraquedas na cortina e nos créditos de "A Guerra dos Mundos".
"Tancredo morreu". A voz quase sem emoção, em retrospecto um pouco irritada, de alguem que assim como eu, perdeu a viagem. Dois passes desperdiçados, no mínimo.
IIE não era difícil sentir-se um trouxa naquela situação. Afinal, foi tão envolvente o drama em que o país se encontrara desde 14 de Março daquele mesmo ano, véspera da posse de Tancredo Neves, o primeiro presidente do Brasil democraticamente eleito desde Jânio Quadros em 1960.
Internado as pressas e em estado grave no Hospital de Base de Brasília, Tancredo foi transferido no dia 26 de Março para o Hospital das Clínicas de São Paulo. Lá ficou até o dia de sua partida, desta para a melhor. Permaneceu seu vice, José Sarney, empossado.
E quantos de nós, os calouros, não fizemos ao menos uma visita a entrada do dito hospital? Que para alguns, como o lendário Gil Topete, era no caminho de casa mesmo. Virou quase que um point, com momentos de descontração e encontros inusitados, enquanto tomávamos as dores e vivíamos tão próximos e intensamente o desenrolar da tragédia. Dentro do HC, em coma, o potencial salvador da pátria, o ex-primeiro ministro do governo de Jango, agora ligado a um respirador, com as tripas estendidas vez por outra, ao longo das paredes da sala de operação.
Teorias sobre conspirações, possíveis atentados, circulavam sussurradas, ante o temor de que o monstro semi-adormecido da ditadura novamente despertasse, soltando fogo pelas ventas, trazendo mais duas décadas de retrocesso.
As velas queimavam, as equipes de reportagem e o povo se aglutinavam. O impasse prosseguia. Noite após noite. Dia após dia.
E ocorreu que numa daquelas noites, quando me encontrava tambem desligado, no torpor da cerveja, talvez algumas cachaças e sabe deus mais o que, as últimas notas do maquinário hospitalar tocaram: blip... blip... blip... bliiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... O reality show chegou ao fim. Passava das dez quando a dolorosa notícia foi divulgada. A segunda-feira seguinte, feriado nacional, e oito dias de luto oficial; Sarney assim o decretou. Mais rumores. Morrer convenientemente no final do horário nobre, logo depois do Fantástico, o show da vida. Será? Só imaginação...
IIIBem... já que este trouxa estava no ponto, por que não arriscar e ir até as quebradas, procurar pelos meus pares? Sem demora consegui uma carona, e nem tive que disputar o veículo com outra meia-dúzia de dedões, dada a circunstância.
Do motorista não lembro se era homem ou mulher, preto ou branco, jovem ou velho. Mas lembro bem da incerteza no silêncio que compartilhamos durante aqueles poucos quilômetros.
Chegando ao meu destino final, de fato os encontrei; no gol Ney, no ataque Fábio punk. Eu me dei por contente no meio campo e havia lá mais um chapa do Fábio, um proto careca da turma do Falcão, que morava no CRUSP, tocava nos Excomungados e vez por outra dava as caras.
Com esta escalação desfalcadíssima o time foi a campo - missão impossível número um, achar um bar aberto. A opção mais óbvia estando fechada, tivemos que jogar fora de casa e nos dirigimos ao bar da psicologia, a beira do regato.
Negativo elemento, repito, negativo - aquele bar tambem estava fechado e não havia sombra de psicóloga no pedaço. Aos leitores com RG mais alto, que porventura encontrem as palavras cá tecladas um tanto desapegadas da realidade, eu vos informo, o mundo ainda não conhecia, repito, estava por chegar a telefonia móvel. Isso mesmo, tentem imaginar uma existência despojada de torpedos, facebook e twitter (redes socias - nota para a galera de 2033 e além). Assim vivíamos na pré-história da comunicação. Emitindo grunhidos indecifráveis, gírias a muito esquecidas e olhando os reflexos na superfície do córrego, quiçá rumo ao mar, ao longo do leito de concreto.
Naquele ponto da evolução ainda não sabíamos que estávamos prestes, primeira missão impossível já um estrondoso fracasso de público e crítica, a nos aventurarmos novamente, desta feita na missão impossível número dois do dia.
Não lembro se foi Fábio ou Ney quem perguntou, suas vozes igualmente suaves e ligeiramente anasaladas, se alguem tinha um. Ninguem. Logo outra sugestão provocava risos; garimpar o CA. Assim chamávamos nosso centro acadêmico, indubitavelmente o mais avacalhado entre todos os da gloriosa Universidade de São Paulo. Aquele desperdício de tijolos e cimento, com as funções de acomodar reuniões da turma do fumacê, a ocasional partida de pebolim e vez por outra um picote. Assim diziam as más línguas - outra que as contem.
E lá, vasculhando minuciosamente a espessa camada de "jornais, panfletos e revistas" (leia-se lixo) que cobria todo o chão do CA, começamos a nossa demanda do santo graal, achando um belô aqui, um galhinho acolá e mais adiante uma semente.
Após revirarmos toda a área em alguns minutos de intensa labuta, o bêise até que não saiu de mau tamanho. Depois de fumarmos, dispersamos como a névoa, sob o sol do meio-dia e do céu, de um azul já mais profundo. Cada qual seguindo seu caminho, com uma perspectiva positiva da vida e dos fatos.
E neste parágrafo termina a postagem sobre o dia que desligaram o Tancredo que na verdade, conforme descrito, foi na noite anterior, domingo dia 21 de Abril, 1985. Espero que tenha trazido lembranças agridoces a todos, e que os mesmos sintam-se compelidos a deixarem suas memórias, ao lado desta e das outras, que aqui já se encontravam.
Bjs, abs, sdds
Daniel
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Todos os personagens representados são fictícios.
Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
As palavras, não se limitando a, intoxicação, cerveja, cachaça, psicologia, bêise, fumacê, belô, galhinho e semente são empregadas no sentido figurado e não propõem correlações, homólogas ou análogas, com entidades desta dimensão ou outras, blá, blá, blá.
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