1985. O ano começou bambo ao longo do esculhambódromo. Eu estava entre a primeira e segunda fase da Fuvest, sem muitas certezas, tendo escolhido o curso de Rádio e TV por exclusão. Já havendo cursado um semestre de Ciências Sociais na UNESP de Marília, seguido de um ano na História da USP.
O verão passava e eu não muito a fim de estudar. No último dia do exame da segunda fase, após uma noitada, acordei tarde e emprestei o fuscão da minha mãe. No caminho fumei a bagana remanescente da balada anterior. Cheguei na sala dez minutos atrasado mas o examinador foi misericordioso e me deixou entrar. Escrevi a redação e a boa alma que a corrigiu também me fez um grande favor visto que este exame tinha grande peso comparado com os outros. Na verdade eu sabia que (na época atribuia certa importância ao) meu bio-ritmo estava bem naquele dia. Após o exame e uma cerva, passei horas no fliperama com uma só ficha, ganhando todas. Isto raramente acontecia.
Mesmo assim mau acreditei quando alguns dias depois li meu nome na lista dos aprovados. Entrei na ECA. A ECA de Tadeu Jungle e Pedro Vieira. A ECA de Marcelo Rubens Paiva, de Lilian Witte Fibe além de Rita Lee, diziam as más línguas. Meu Deus com dê maiúsculo!
Passada a euforia inicial logo voltei aos maus hábitos e depois de mais uma batelada de burocracia estudantil me deparei com o primeiro amiguinho e este foi o Lusão. Ele estava lá entre o prédio principal e o departamento de jornalismo. Os caracóis em chamas, na tarde alaranjada, conversamos sobre Marília (Luso se recusava a dar bom ibope a cidade mãe) e compartilhamos a magia daquele instante, de jovens se atirando com fome de viver ao mundo, algo que como nascer, perder a virgindade e morrer, só se experimenta uma vez nesta vida, n'est pas?
Dei o meu adeus ao curso de História, na forma de uma aula trote entitulada "Macro História e Micro História" que lecionei para os calouros daquele departamento. Fui apresentado ao anfiteatro quase lotado pelo então jovem professor Nicolau Sevcenko, tão conceituado quão chegado numa peraltice - ele encheu a minha bola legal. Consegui dobrar los ainda que um bandeiroso do meu ano tenha aparecido de sunga, máscara, snorkel e pés de pato. Após terminar, sem não antes instigar naqueles otários a necessidade de sempre exercitarmos o senso crítico, flertei por breves instantes com os louros da glória, quando ao me encaminhar para o bar fui imediatamente abordado por duas calouras altas e bem apessoadas, interessadas em mais macro e micro histórias. Bem, como creio eu ser no fundo, no fundo, no fundo uma pessoa de boa índole, sem mais informei as ingênuas o ocorrido, após o qual se levantaram, me deram as costas e nunca mais me olharam na cara.
Mas isto já é milonga demais afinal esta milonga é sobre O Diário do Gil Topete.
Cheguei na RTV já fazendo alguns amigos e outros inimigos mas lá num canto, quieto e fumando seu hollywood, sentado neutro na janela estava o Gil. Após algumas semanas de convivência, a Juju e as cervejas nos aproximaram até o ponto em que eu passava no apê da vó dele - após o desligamento do Tancredo me mudei da Vila Madalena para Santa Cecília - na Avenida Higienópolis, para pegar uma carona no Chevette do Topete.
Invariavelmente era atendido pela avó, que me conduzia para o seu quarto - Gil na cama, semi-consciente, ligeiramente mau-humorado. Invariavelmente chegávamos atrasados, nas já para lá de avacalhadas aulas do básico. Não mentirei, a Bacega me ensinou uma coisa ou duas, mas isto é assunto para outra postagem.
Comecei a desconfiar que Gilberto ao contrário de mim, era um ser verdadeiramente amoral e não considerava minimamente prioritárias as incumbências discentes. Assim sendo, nas ocasiões em que o horário apresentava algo mais interessante, eu enfrentava o terror do Butantã-USP para ser pontual.
Ocorreu que um dia, durante o período matutino, no ano do senhor de 1985, eu estava parlando com a Juju quando apareceu não sei de onde, o diário do Gil Topete. Na verdade, naquele ponto da evolução, não sabíamos do que se tratava aquela agenda preta, mas como a natureza humana é xereta, logo descobrimos. Os dias - os impressos e os anotados, estavam fora de fase, mas logo vimos pelo padrão das entradas, em order crescente de data, que se tratava de um diário. A caligrafia, por conta do convívio, identificamos como a dele, e com olhos ávidos de curiosidade, começamos a varrer os fatos ali contidos. Estes, fazendo jus, eram mais prolíficos nos meses de férias, antecedendo o começo das aulas - quando os escritos foram tornando-se cada vez mais escassos, até morrerem abruptamente numa página em branco, a alma sem inspiração, a mão sem disposição para empurrar a caneta pelos meandros do tédio.
Tal qual Édipo descobrindo que havia matado o pai e desposado a mãe, grande foi minha surpresa quando constatei que o formato dos dias ali narrados era praticamente um só: "Acordei [na casa de não sei quem], peguei uma carona[até não sei aonde]. Fui para casa, fiz a barba. Fui para o Rose Bom Bom [não sei quem] estava de dj e entrei de graça. Depois no Madame Satã encontrei o guitarrista do [grupo tal] e o baterista da [outra banda]. Peguei uma carona para uma festa da [amiga do amigo da amiga]. Fiquei com [não sei quem]."
Nestas, Gil viveu em primeira pessoa a explosão musical da época. Ainda que um Rockabilly de carteirinha, ele viu de tudo, Legião no começo do começo - sua irmã Marcinha era boa amiga de Renato Russo, que sempre a telefonava, quando em São Paulo. Ira! Nazi sendo seu inimigo número um, ambos disputando o amor de Camila (não a da música). Enfim, tantas bandas cruzaram seu caminho pela noite Paulistana.
Infelizmente creio aqueles rascunhos estarem no mesmo local que a maior parte de minhas memórias. Mas lembro que o diário era gozado. Era a apoteóse do sex, drugs e rock and roll sem as drogas - Topete era mais chegado no cigarro e na birita.
E aqui termina o conto do diário do Gil Topete.
Não percam no próximo episódio... As pesquisas da Maria Aparecida Bacega, a não ser que algum outro(a) aventureiro(a) queira contar este causo.
Tomo guaraná, suco de cajú, goiabada para a sobremeeeeeeeesa...
ddddddd